Brazil: Why All Pipelines Flow To the Sea of Noise


In its infamous Northwest trading operations, Enron moved energy around electronically that never passed through the pipes. Journalism 2.0 has a similar dynamic.

… in a day and age when more and more news is passed along through syndication rather than developed independently, it is more urgent than ever that we apply bullshit filtration to the pipes. –NMM Maxim 13, Release Candidate.

Leu um, leu todos!: “You read one newspaper, you have read them all.”

Terra Magazine interviews the author of a new book on TV journalism in Brazil, a professor at the University of Brasília school of journalism and editor at the federal legislature’s TV Câmara — which is not an indy nonprofit like C-SPAN, note — on Brazilian news media.

Murilo César Ramos – Por que escrever no “Telejornalismo em Close” da semana passada que ler um jornal no Brasil, qualquer que seja, dos chamados grandes, equivale a ler todos?

Why do you write, in your book “TV Journalism in Close-up,” that reading one Brazilian newspaper is the same thing as reading all of them?

Paulo José – Ler um jornal no Brasil é ler todos porque todos os (grandes) jornais brasileiros publicam rigorosa e sistematicamente as mesmas notícias, com diferenças superficiais de tratamento, um ou outro box com alguma explicação adicional, um infográfico mais esclarecedor ou uma foto mais bem apanhada. Do ponto de vista do conteúdo, raramente os jornais brasileiros conseguem sair com matérias próprias, exclusivas, e que se diferenciem da concorrência.

Paulo José Cunha: Because all the (major) Brazilian newspaper publish, in a rigorous and systematic fashion, the exact same news reports, without only superficial differences in treatment, a box here and there with some additional background, an infographic here and there that is more or less edifying, a photo here or there that is more or less better shot. From the point of view of contents, you rarely see Brazilian newspapers managing to come out with their own exclusive reports, or trying to differentiate themselves competitively. 

Mas, não haveria exceções?

Q: But are there no exceptions?

Exceções? Claro que as há. A entrevista da Renata Lo Prette (Folha de S.Paulo) com o ex-deputado Roberto Jefferson, que disparou o escândalo do mensalão, é uma delas. A matéria de Rosa Costa no Estadão revelando a existência de um caseiro do ex-ministro Palocci, vítima de quebra de sigilo bancário que destronaria o todo-poderoso ministro da economia de Lula, é outra. E a matéria do Lúcio Vaz & Equipe do Correio Braziliense denunciando o escândalo dos sanguessugas, idem.

Oh, sure. Renata Lo Prette (FSP) and her interview with Roberto Jefferson, which broke the “vote-buying” scandal, is one. Rosa Costa’s article in the Estadão on the existence of Palocci’s houseman, who had his banking privacy violated, which dethroned the all-powerful economic czar in the Lula government, that was another. And the article by Lúcio Vaz & team in the Correio Braziliense denouncing the “bloodsucker” (ambulance contracting) scandal, likewise.

Mas veja que são matérias e-ven-tu-ais. E raras.

But notice that these are reactive, spur of the moment pieces. And rare at that. 

Para encontrar uma exclusiva dessas você precisa ler o mesmo jornal todo dia para, ao final de um ano, com sorte, ter lido umas três, no máximo umas cinco. O resto é a massa comum a todos os demais jornais. E quando digo “exclusivas” não me refiro apenas aos furos – falo até mesmo do dia-a-dia, da notícia que todo mundo tem.

To find an exclusive of this kind you have to read the same newspaper every day, so that, at the end of the year, with luck, you will have read three, maybe five of them. The rest comes from the same batch of mystery meat shared by all the newspapers. And when I say “exclusives” I am not just referring to scoops — I am also talking about the day-to-day, the news that everybody has.

Se observar um jornal como o Correio Braziliense, por exemplo, vai encontrar várias matérias assinadas apenas com o crédito “Da Redação”. Isso significa que o material é a transcrição ipsis literis de algum texto de agência ou, no máximo, uma fusão dos textos sobre o mesmo assunto, distribuídos por diversas agências de notícias. A “Redação” não apurou coisa alguma (senão os nomes dos repórteres estariam lá). Apenas “enfeitou o pavão”. Por vezes, se ficar atento e tiver a pachorra de fazer a comparação, encontrará o mesmíssimo texto do Estadão (leia-se Agência Estado) no Correio Braziliense. Talvez com um outro título ligeiramente diferente. E olhe lá… Por isso, afirmo sem pestanejar que ninguém perde nada se ler apenas um grande jornal brasileiro – O Globo, a Folha etc.

If you look at a paper like the Correio Braziliense, for example, you’ll find various articles bylined with “The Newsroom” [or, the editors –Ed]. That means the article is a merely a word-for-word transcription of some wire story or, at best, a fusion of two pieces of wire copy on the same subject. “The Editors” did not look into or report critically on a darn thing (except to make sure that the names of the reporters are credited). All they do is “dress the turkey.” Sometimes, if you pay close attention and have the time and energy to make the comparison, you will find the exact same text in the Estadão (in other words, the Estado wire service) and the Correio. Maybe with a slightly different headline. And there you have it … That is why I state unequivocally that you miss nothing if you read only one Brazilian newspaper, whether it is O Globo or the Folha de S. Paulo or any other.  

Personally, I prefer to read precisely none of these, except that I find the Estadão itself — as distinct from the Agência Estado, which is equally vile — a little easier to stomach. –Ed.

Sou assinante do Correio Braziliense. Como tenho de sair muito cedo, antes do sol nascer já estou folheando o Correio. Quando chego à redação da TV Câmara para apresentar o telejornal matinal “Primeira Página”, em que exibo todos os jornais para as câmeras, depois de ter selecionado as principais notícias para análise, raramente encontro alguma coisa diferente do que já vi no Correio.

I subscribe to the Correio. Because I have to leave home very early, before sunrise I am leafing through the Correio.  When I get to the newsroom at TV Câmara to do the morning “Front Page” report, after having selected the main news items to be analyzed, I rarely find anything in the pipeline that I have not already read in the Correio.

Se me permite…

If you will permit me … 

Vá em frente!

Go right ahead!

… acho que consigo identificar algumas causas para essa mesmice. A primeira é o enxugamento das redações, com equipes cada vez mais reduzidas e uma brutal redução nas verbas para a realização das chamadas “grandes reportagens”. A segunda causa tem a ver com a chegada avassaladora do chamado “jornalismo em tempo real”, eletrônico, via internet ou canais de TV de news, que afetou as tiragens e reduziu os níveis de leitura. A oferta de informação eletrônica é bem maior do que a procura.

… I think that I can identify some causes of this monotony.  The first is the drying up of newsroom staffs, with smaller and smaller teams and brutal budget-cutting for the realization of so-called “in-depth reports.” The second cause has to do with the slavishly and elaborately touted arrival of so-called “real-time journalism,” electronic, over the Internet or TV new channels, which has affected circulation and reduced the levels of readership. The amount of information on offer electronically is much greater than the demand. 

Para completar, na base disso tudo existe a constatação amarga feita por uma ex-aluna, e que pode ser sintetizada numa frase dela: “os tempos são outros”, para demonstrar o fim do que se costumou chamar de “jornalismo romântico”, e sua substituição pela submissão às modernas tecnologias, com reflexos de profundo reducionismo na qualidade dos textos e na profundidade das apurações. Talvez o jornalismo daqueles tempos fosse mesmo mais romântico. Mas, quem disse que o bom jornalismo precisa prescindir do romantismo, combustível que se associou ao espírito aventureiro de jovens repórteres para a realização de uma tarefa que se pretendia cada vez mais longe do tecnicismo e que buscava suas referências no humanismo, na ética, e na filosofia?

In sum, behind all this is the bitter comment a former student of mine made, which can be gistered as follows: “These are different times,” which goes to show that we are witnessing the death of what we used to call “romantic journalism,” which is being replaced by total submission to modern technology. The result is a deep cut in the quality of writing and reporting and in the depth of investigation. Perhaps journalism is less romantic these days. But who says that good journalism needs to dispense with “romanticism”? With the adventurous spirit of young journalists, which fuels their drive to do work that goes well beyond mere technical reporting, and has its basis in humanism, ethics and philosophy?

Mas, que “tempos românticos” foram esses? É possível datá-los no Brasil? Não seria muito “romantismo” de nossa parte imaginar que eles existiram?

Besides, what “romantic times” are we talking about here, anway? Can we assign a date to this romantic period in Brazil? Or is it not rather “romantic” on our part to imagine that such a thing has ever existed here?

Quando falo dos “tempos românticos” refiro-me à época (e não faz tanto tempo assim) em que a atividade jornalística era realizada em bases menos mercantis e mais idealistas, aí embutidas as suas funções institucionais, que passam pela fiscalização do poder, a investigação dos diversos aspectos da vida social, o enfoque em profundidade de temas da maior relevância e que por vezes não são percebidos no dia-a-dia.

When I speak of “romantic times” I am referring to that period (not so long ago, really) in which journalism was based less on commercial considerations and more on idealistic consideration, as reflected in its institutional function in society: monitoring power, investigating various aspects of social life, focusing in depth on themes of great social relevance that are not always perceptible in our day to day routine.

Era o tempo da “grande reportagem”, que foi parar sabe-se lá em qual escaninho da história. Tempos de revistas fantásticas como Realidade, Senhor, Veja (em seus primeiros anos) – todas no rastro da velha O Cruzeiro de David Nasser, Drew Zing e tantos outros, na trilha aberta por Chateaubriand, Samuel Wainer.

It was a time of the “in-depth report,” which sputtered to a halt during who knows what stretch of our history. It was a time of great magazines like Reality, Senhor, the first years of Veja [the Mino Carta years, i.e. –Ed.] — all of them hot on the trail of the old O Cruzeiro of David Nasser, Drew Zing, and so many others, the trail blazed by Chateaubriand, Samuel Wainer. 

Naquela época – acho que até o início dos anos 80 – a imprensa, em sua maioria, ainda se pautava por esses princípios. Éramos mais aventureiros, e as empresas apostavam em nossas aventuras. Era mais importante a busca da informação exclusiva do que a perda de energia com o cuidado para não levar furo. Isso fazia com que os jornais fossem um pouco mais diferentes uns dos outros. Havia mais tempo para a apuração, o cultivo de fontes, a investigação.

At that time, I think it was at the beginning of the 1980s, the press, for the most part, still planned its coverage according to those principles. We were more adventurous, and the media companies bet on our adventures. It was more important to get exclusive information than it was to waste energy on taking care not to get scooped. This made for newspapers that were a bit more different from one another than they are now. There was more time for background research, the cultivation of sources, investigation.

É bom lembrar também que não havia esse patrulhamento idiota que faz com que um repórter se sinta constrangido por ser “flagrado” almoçando com uma fonte… É claro que não defendo o outro extremo – a promiscuidade com as fontes e o uso da profissão para as famosas carteiradas. Nada disso.

It is well to remember that we did not have this idiotic patrolling of reporter conduct whereby “outing” a reporter having lunch with a source is deemed an embarassment. But obviously I do not defend the other extreme — promiscuity with sources and the leveraging of one’s profession for those infamous carteiradas [getting yourself hired to do PR work for people you cover in exchange for favorable coverage in your reporting –Ed.]. No way, no how.   

Por outro lado, levar furo fazia parte da atividade, e a cobrança das chefias não era tão pesada quanto hoje, em que a necessidade de não ser passado para trás pela concorrência virou obsessão. Chega a dar pena acompanhar a angústia dos colegas que fazem cobertura em tempo real, na tentativa de abarcar tudo o que acontece na Esplanada, no Planalto, no Congresso e nos Tribunais. Onde vai parar o bom texto nessa correria toda? Onde fica a sensibilidade para encontrar o “homem” no meio dos índices e dos percentuais?

[tktktktk]

Quanto à segunda parte da pergunta, corro o risco de ser taxado de saudosista, mas tenho a mais absoluta certeza de que aqueles tempos de “jornalismo romântico” existiram, sim. E sua maior contribuição foi a produção de um jornalismo cheio de defeitos, mas muito mais generoso e humanista – quando não existia ainda a praga das estatísticas e dessa mania copiada dos americanos de botar pesquisa em todas as manchetes. Quando falo em “jornalismo romântico” obviamente não penso na volta das redações esfumaçadas, dos repórteres queimando a saúde e discutindo política nos botequins, nem mesmo no heroísmo dos profissionais que se tornavam protagonistas das notícias pelos riscos que corriam no “sacerdócio” da caça à informação. Não se trata disso. Defender a volta dessas práticas seria um desserviço aos avanços conquistados. Falo da necessidade de se resgatar um pouco da paixão inerente e insubstituível a uma profissão que se diferencia das outras exatamente pela possibilidade de centrar a atenção na condição humana em todas as suas manifestações.

[tktktktk]

Mas, você não estaria sendo idealista demais, ao querer resgatar um jornalismo menos mercantil em um ambiente em que praticamente tudo, do classificado ao editorial, parece ter virado mercadoria?

[tktktktk]

Talvez. E tem razão quando lembra que toda a cadeia editorial submeteu-se aos imperativos do mercado. Mas insisto acreditando que o élan, o combustível que move e motiva a atividade jornalística não reside no lucro, mas numa vocação íntima e insubstituível, que faz um repórter esquecer de cobrar as horas extras que gastou numa apuração, o almoço com a família trocado por um sanduíche frio devorado às pressas, e até mesmo a segurança pessoal em nome de uma boa matéria.

Sem este ingrediente não existe bom jornalismo. No máximo, a rotinização da cobertura que converte a atividade na realização de um produto muito próximo de um relatório. Se conversar com qualquer bom repórter, vai perceber o brilho nos olhos diante de uma boa pauta, a disposição de interromper as férias ao se deparar com uma matéria pronta para ser apurada.

[tktktktk]

Não sei que nome se pode dar a essa chama, mas ela não é atiçada a dinheiro, mesmo reconhecendo, como já afirmei, que você tem razão ao salientar o caráter mercantilista que passou a cobrir praticamente todas as etapas da produção e todas as seções de um jornal. Se me perguntar como e o que se pode fazer para resgatar e valorizar essa força motivadora, não teria uma resposta pronta pra lhe dar. No máximo, poderia apontar caminhos, como o resgate da boa e velha grande reportagem e o incentivo à investigação e a mudança da própria filosofia editorial (substituição do medo do furo pela busca da informação exclusiva e diferenciada, por exemplo).

[tktktktk]

Acredito sinceramente na possibilidade de convergência entre os interesses comerciais e a valorização da vocação original da imprensa.
[tktktktk]

Se conversar com Rosa Costa, do Estadão, autora do furo que derrubou Palocci ou com Lúcio Vaz, do Correio Braziliense, autor do furo dos sanguessugas, vai perceber que são exceções dentro de redações onde cada vez mais a atividade funciona no piloto automático. Falta à maioria dos repórteres em atividade o tal élan a que me referi. Aliás, talvez nem falte o élan, mas o incentivo para que esse élan seja devidamente aproveitado e direcionado.

The worst thing about the “scoops” the professor mentioned — I am not even sure that the whole story has been told about Palocci, although I think his unethical use of authority to ratfuck a young man who may have been paid off to slander him is pretty unequivocal, no matter what the rest of the story may turn out to be — the truth is that none of these pooper-scoopers ever followed up adequately on the aftermath of what they uncovered.

The “vote-buying” scandal, for example, has every sign of being just that: pure scandal and no substance as to the corrupt practices of the government.

As to corrupt money-laundering practices, however. the case was dropped like a hot potato as soon as it turned up that parties outside the governing alliance had started up the system and run it for years before a couple of asinine PT publicity jerks allegedly decided they needed to get a taste as well.

See also the curious case of Gov.-Sen. Azeredo.

Uma vez, lá pelos anos 70, ouvi de um velho jornalista, o saudoso Abdias Silva, do Jornal do Brasil, que alguém é repórter ou não é repórter. E o que parecia um truísmo na realidade era a constatação da existência desse élan, dessa chama que diferencia a vocação da obrigação. Repórter é alguém que possui alguma coisa diferente da maioria dos mortais. Como professor de Comunicação da UnB sei, perfeitamente, quando estou diante de um futuro repórter, mesmo quando o texto não é dos melhores, mesmo quando não sabe direito onde pretende atuar, se num jornal impresso, numa emissora de rádio, num site ou numa emissora de TV. Aprendi a identificar aquela chama que precisa, urgentemente, ser avivada, promovida, incentivada, porque sem ela aquela vocação pode cair na burocracia que constitui a própria antítese do trabalho da imprensa.

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Um exemplo simples, só pra finalizar: uma vez, na TV Globo, o repórter Leonel da Mata, que cobria a Presidência da República, fazia um plantão de fim de semana, e foi destacado para apurar a denúncia de um telespectador, de que na rua de uma cidade-satélite estava correndo água sem parar, água de boa qualidade. Embora fosse um repórter “nacional”, Leonel nos deu naquele dia uma aula de profissionalismo.

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Em vez de simplesmente filmar a ocorrência e procurar explicações dos técnicos da CAESB, resolveu perseguir aquele fio de água. Entrou em casas, pulou muros, atravessou quintais, enfrentou cachorros e espinhos de matagais até encontrar o ponto exato do vazamento: um cano da própria CAESB, mal cuidado, que provocava um desperdício formidável justamente numa área onde o abastecimento d’água era precário. Deu-se ao trabalho de medir a vazão do vazamento para calcular, com base na tarifa, quanto dinheiro do contribuinte literalmente havia escorrido e continuava a escorrer pelo esgoto. Só um repórter com aquele élan a que me refiro dá-se ao trabalho de fazer uma coisa dessas.

[tktktktktk]

Lamentavelmente tenho visto muito pouco desse espírito ultimamente. Aquele “algo mais que só a Shell lhe dá” parece que anda fora de moda. A obrigação cada vez mais vem se impondo à vocação. Uma pena. Ainda bem que existem exceções, mas são poucas.

[tktktktktk]

Murilo César Ramos é jornalista e professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília. Coordena na UnB o Laboratório de Políticas de Comunicação e o Grupo Interdisciplinar de Políticas, Direito, Economia e Tecnologias das Comunicações. É sócio da Ecco / Consultoria em Comunicações.

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