Brazil: Prof. Rezende Links Jack Abramoff To Elections Fraud


“Without it, life would be hell on earth.” Microtec advertisement, Veja magazine, issue 87. File under “the rhetoric of the technological sublime (RTS) in postmodern technology PR, Velvet Elvis tendency.”

This, I thought — the link is from the Voto Seguro forum in Brazil — is a fine jeremiad against the rhetoric of the technological sublime as deployed by its evangelists, both here in Brazil and in the broader world of faith-based gringo democracy-exporting economies.

The important factoid to register here, and try to elaborate on and substantiate for my notes: The company that hires the people who program Brazilian voting machines also employed Jack Abramoff.

It was also involved in the Mails scandal here, which led to the Belo Horizonte Baldy money-laundering scheme from which Sen. Azeredo was found to have benefitted.

Sen. Azeredo wrote the law outlawing printed records of votes on Brazilian voting machines.

At the behest of senior elections officials.

Do I need to draw you a picture?

The author:

Pedro Antônio Dourado de Rezende, professor de Ciência da Computação da Universidade de Brasília (UnB), coordenador do programa de Extensão Universitária em Criptografia e Segurança Computacional da UnB, ATC PhD em Matemática Aplicada pela Universidade de Berkeley (EUA), ex-representante da sociedade civil no Comitê Gestor da Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICP-Brasil)

Prof. Rezende is a computer scientist from the University of Brasília with a Ph.D. in applied mathematics from Berkeley. He works on cryptography matters here, including public-key infrastructure.

It is fashionable these days to tar persons who articulate such arguments as “neo-Luddites,” of course — a phrase that, among other things, betrays a certain amount of Wikipedia-driven ignorance of the historical record on the Luddite movement.

But it is somewhat harder to undermine the opinions of a computer expert with those credentials by painting them as the products of fear and ignorance, I find.

How we would go about undermining the man’s credentials?

By painting the Prof. as a self-hating nerd? Or, as those folks at (Hearing) Global Voices Online like to say, as someone who “just doesn’t get the Internet”?

Numa sociedade consumista, até a democracia fica à mercê da lógica do consumo. Mas democracia não se compra, se cultiva. É um processo participativo, que culmina em eleições. Eleição é um processo de luta por ocupação de espaços, que não se restringe aos espaços de opinião, nas campanhas. Prossegue, ou deveria prosseguir, na fiscalização da votação e da apuração, para a ocupação dos cargos disputados por quem de direito.

In a consumer society, even democracy is at the mercy of the logic of consumption. But democracy is not something that is bought. It is something that is cultivated. It is a participatory process that culminates in elections. Elections are a struggle to occupy space, and not just space in public opinion, through campaigning. It proceeds, or ought to proceed, by monitoring the vote and verifying the vote count in order to award elected office to those with a legitimate right to it.

A política reflete, porém, a natureza humana. Quem for fiscalizar, por um candidato ou partido, estará com isso também se expondo à tentação (ou à instrução) de fraudar, se os outros permitirem. Para quem valoriza a democracia, o melhor resultado eleitoral é quando há empate nesse front. Quando partidos competem com equivalentes competências fiscalizatórias, para que não haja fraude e o resultado seja justo.

But politics is a reflection of human nature. Persons assigned by a candidate or party to monitor elections are also going to be exposed to the temptation (or receive orders) to commit fraud, if others permit it. For those of us who value democracy, the best result would be a race to the top in this respect, in which political parties compete to field an equal degree of expertise in the area of elections monitor, so that fraud will not occur and the result will be fair.

Entretanto, no Brasil de hoje, o processo eleitoral é mais espetáculo midiático que qualquer outra coisa. O eleitor é convidado a assistir a uma espécie de corrida de pesquisas de opinião, com bandeirada final no dia da eleição. Na bandeirada, ele vai até uma caixa preta apertar botões, e depois senta-se à frente da televisão para ver o resultado. À exceção dos pleitos proporcionais, o processo se tornou parecido a um enorme videogame. A importância do front fiscalizatório no processo desapareceu da percepção dos eleitores.

In Brazil today, however, the elections process has become more of a media media spectacle than anything else. The voter is invited to watch a sort of poll-driven Formula One race, with the checkered flag falling on election day. During the final lap, the voter goes up to a black box and pushes some buttons, then sits down in front of the TV to see the results. With the exception of the proportional races, the whole process has come to be something like playing a videogame. The importance of election monitoring to the process has disappeared from public awareness.

Eleição como espetáculo

Elections as spectacle

Quem tenta explicar porque aceita esse modo de eleger governantes, geralmente desconhece detalhes da informatização que o trouxe. Quem tenta explicar, confia na tecnologia empregada como se esta fora o resultado natural da evolução do processo. Ou, pior, confia como se esta fora uma dádiva dos deuses para resolver problemas da natureza humana, como por exemplo, a tentação de se fraudar eleições. Confiam, ingenuamente, que uma suposta neutralidade da tecnologia é, de alguma forma, transferida para quem a controla, um dogma da seita do santo byte ([URL]). De acordo com recente pesquisa do Instituto Nexus e Fundação Padre Anchieta, dentre brasileiros, são 88,7% os que confiam na Justiça Eleitoral, e 99% na urna eletrônica ([URL]).

Those who try to explain why we should accept this method of electing government officials are generally ignorant of the details of the computerization that made it possible. Those who promote and defend it have faith in the technology used, as if it were merely the product of the natural evolution of the process. Or worse, they have faith in it as if it were a gift from the gods, sent down to resolve human problems such as, for example, the temptation to commit election fraud. They believe naively in the supposed neturality of technology and, in a certain sense, transfer that faith to those who control that technology, a sort of dogma of the sect of the holy byte. According to a recent poll by the Nexus Institute and the Padre Anchieta Foundation, 88.7% percent of Brazilians have confidence in the election authorities and 99% have confidence in the electronic voting machine.

See also my The People Have Faith in Electronic Voting!. Another possible take on the actual numbers reported, as I wrote:

Nearly half of Brazilians do not have complete faith in the integrity of the election results!

The poll was taken in November and re-released this month in response to an IBOPE survey that showed vote-buying sharply on the rise in the last election.

See also my translation in Brazil’s IBOPE: “Election Skullduggery Triples” and Mello Mans the Moral Megaphone. The presiding officer of Brazil’s elections authority is the first cousin of Fernando Collor, impeached ex-president and senator from what looks more and more each day like the narco-dominated Temporary Autonomous Zone of Alagoas, who appointed him to the Supreme Court.

Para agilizar a apuração, ou impedir fraudes possíveis com votação em cédulas de papel, o processo eleitoral totalmente informatizado concentra controle. Em cada vez menos pessoas, que assim concentram cada vez mais poder. Conseqüentemente, o perfil dos riscos envolvidos no processo eleitoral sofre importantes mudanças. Troca-se a vulnerabilidade que havia, no risco de velhas fraudes, armáveis no varejo e difíceis de serem ocultadas, pela vulnerabilidade que haverá, no risco de novas fraudes, programáveis por atacado e fáceis de serem ocultadas. Em conseqüência, aumenta a importância da fiscalização ser eficaz, para que as eleições sejam confiáveis. E mais importante, para que sejam entendidas as razões por que são confiáveis.

To expedite the counting of votes or to prevent forms of fraud that are possible with paper ballots, the wholly computerized elections process concentrates control in the hands of fewer and fewer persons, who therefore concentrate more and more power. As a consequence, the risk profile of the elections process has undergone important changes. We have traded in one set of vulnerabilities, one set of techniques for committing election fraud, for a new set of risks, in which fraud can be committed remotely and easily concealed. For that reason, it is increasingly urgent that effective elections monitoring be performed, so that we can understand why it is that we should be confident of the results.

Doutra feita, os que confiam cegamente na tecnologia tendem a ver, nessa troca, apenas detalhes irrelevantes à nova situação. Por exemplo, o detalhe de que, para se fraudar eleições totalmente informatizadas, é necessário conhecer bem o sistema. Poucos poderiam assim fraudar, ao contrário das eleições em papel. Detalhe que continua verdadeiro se trocarmos “fraudar” por “fiscalizar”, mas que, desse ângulo, passa a ter a seguinte relevância: o eleitor comum está renunciando ao seu direito de fiscalizar eleições. Em troca do quê? A pergunta é importante, pois o eleitor poderá se tornar presa fácil de falsas percepções. A melhor resposta que consigo encontrar, tomará o restante deste artigo para explicar: em troca de um fetiche modernizante.

What is more, those who believe blindly in technology tend to perceive only the irrelevant details of the trade-off involved. For example, the view that, in order to defraud computerized elections, one has to be thoroughly familiar with the system. Fewer persons will therefore be able to defraud elections, compared with the paper balloting system. A problem that also applies when we substitute the word “monitor”for the word “defraud,” but which, from that point of view, presents us with the following relevant fact: The ordinary voter has renounced his or her right to monitor elections. And in exchange for what? This is an important question, because the ordinary voter is easily captured by false perceptions. The best answer that I can come up with I will take the rest of this essay to explain: We have traded that right for a mere fetish of modernization.

Por que é assim?

How so?

Se fosse pela rapidez, poderíamos aprender com os alemães, que apuram eleições em cédulas de papel com maior rapidez que o sistema eletrônico em uso no Brasil. Por certo temos a Amazônia, mas os alemães têm outro conceito de democracia. Se fosse mesmo pela segurança, estaríamos mais ocupados do que estamos em entender como e porque máquinas programáveis merecem nossa confiança para apontar nossos dirigentes. Pode ser pela comodidade, que aceitamos essa maneira de informatizar. Para quem nunca sofreu com falta de democracia, votar é apenas mais um incômodo. Se não se confia em políticos, por que se incomodar com a fiscalização de eleições? Comodamente, o fetiche afaga o desleixo e a credulidade: Se poucos dominam a tecnologia, que a tarefa de fiscalizar eleições informatizadas seja então passada a algum órgão especializado.

If speed were our goal, we might learn something from the Germans, who tally the result from paper-based voting more rapidly than the electronic system in use in Brazil. Sure, Brazil has the Amazon Basin, but the Germans have another concept of democracy than ours, it seems. If security were our goal, we would be more concerned than we currently are to understand how and why programmable machines merit our confidence when we go to elect our leaders. Perhaps it is convenience that explains our acceptance of computerizing elections in this way. For someone who has never suffered the lack of democracy, voting is merely another hassle. If one does not trust politicians anyway, why bother to monitor elections? The technological fetish, comfortable and convenient, produces credulity and laziness: If only a few persons control the technology, let the job of monitoring elections be handed off to some specialized body.

Quem assim pensa não entende, ou não quer entender, que a única chance de terem razões para confiar em algum político é fiscalizando, eles mesmos, o processo de se fazerem representados. Que de sua falta, só poderiam beneficiar os corruptos. Ou talvez isso não importa. Pelo menos para quem se acha inconfiável, continuar sem confiar em políticos parece lógico. Que se preservem os motivos, então? A honestidade e a racionalidade parecem fora de moda, a hipocrisia e cinismo, não.

Persons who think like this do not understand, or want to understand, that the only way to find reasons for confidence in politicians is to monitor the process of electing them ourselves. Failing to do so, we only encourage the corrupt. But perhaps this does not matter. For those who do not trust the system, perhaps continuing to mistrust politicians seems logical. So let us preserve the reasons for thinking this way, right? Honesty and rationality, it seems, are out of fashion, but hypocrisy and cynicism remain perennial favorites.

Na política, não existe vácuo. Na do Brasil, se concentram poderes. As autoridades responsáveis pela execução do processo eleitoral são as mesmas que julgam a lisura das eleições. Esse tipo de concentração, contra o qual se lutou nas revoluções originárias da democracia moderna, e também na nossa revolução de 30, tende a se ampliar. Com esses poderes, autoridades buscam aliar-se aos que possam lhes dar mais poder, para controlar os riscos inerentes aos poderes que já têm. No caso, para informatizar-lhes o processo e legitimar sua justificativa modernizante. Com propaganda massiva, que tem funcionado. Se Nelson Rodrigues estava certo sobre unanimidades, estamos contemplando a exploração de uma burrice.

Politics abhors a vacuum. Thus, in Brazilian politics, different powers get concentrated in the same hands. The authorities who execute elections are the same who judge the fairness and validity of those elections. This kind of concentration of power, the struggle against which gave rise to the original democratic revolutions, as it did to our own Revolution of 193o, tends to grow. With these powers, authorities seek to ally themselves with those who can give them more power, in order to control the risk inherent in the powers that they already have. In this case, they seek to computerize this process and legitimate their modernizing rationale. With massive propaganda, which is working. If Nelson Rodrigues was right about the nature of unanimity, what we are witnessing is the massive exploitation of public ignorance.

In their much-touted “voter education” propaganda campaigns, Brazilian election authorities — aided and abetted by the commercial media — and let us be Brooklyn-blunt about this, out and and lie to the public.

See, for example, my translation and commentary on ‘The First Digital Election’

Quase unanimidade

Near unanimity

Num sistema informatizado, quem controla o acesso também controla os meios de fiscalizar o sistema. O controle dos meios de se fiscalizar eleições, por sua vez, é faca de dois gumes. Serve tanto para repartir esses meios, com eqüidade entre interessados em fiscalizar com eficácia, quanto para sabotar essa eficácia, entre interessados na camuflagem de manipulações. No caso, com shows ilusionistas repletos de espelhos e fumaças virtuais, à guisa de fiscalização. Com, por exemplo, votação paralela retardada, assinatura digital auto-verificada ou cerimônia de compilação truncada, e sem direito a registro material do voto, testes de penetração ou auditorias externas.

In any computer system, the person who controls access also controls the means of auditing the system. Controlling the means of auditing elections, in turn, is a double-edged sword. It can be used to share those means fairly among parties interested in effective monitoring or it can be used to sabotage the effectiveness of election monitoring with an eye to camouflaging the manipulation of results. In this case, using magic shows full of smoke and mirrors, dressed up as effective monitoring. Using, for example, substandard parallel voting, self-verifying digital signatures, and a truncated public compilation ceremony, with no right to demand a material record of each vote, penetration testing or external audits.

The Paraguayans, by the way, have performed penetration on their Brazilian voting machines, and ran a documentary on national TV showing the results.

It ain’t pretty. See my Peril in Paraguay.

And the top representative of the Brazilian consortium hired to conduct the failed quick count in Ecuador’s last election — authorities there were forced to go to the paper ballots when the system inexplicably failed — fled the country when he was released from preventive custody on humanitarian grounds.

See my Another Election Dissection in the Horse Latitudes.

O controle dos meios de fiscalização de eleições totalmente informatizadas serve, ao mesmo tempo, para eliminar as antigas formas de fraude e para concentrar as novas, sob alcance dissimulável de quem opera o sistema. Serve para recosturar grandes conchavos, como os que comandavam a política na República Velha. Não estou dizendo nada, nem querendo dizer nada, sobre motivos nas decisões envolendo a arquitetura do sistema. Estou apenas avaliando os resultados dessas escolhas. Em outras palavras, talvez hegelianas, o controle dos meios de fiscalização de eleições totalmente informatizadas serve para vestir a democracia com mais um véu dialético, sob o qual se move o Espírito do Mundo. E assim ele se move, revelando-se aos mais atentos. Como por exemplo, aos que observam a ação de lobbies, dirigidos ao poder legislativo, quando o assunto é lei eleitoral.

Controlling the means of monitoring completely computerized elections, at the same time, serves to eliminate older forms of election fraud and to generate new forms — deniable, untraceable forms of election fraud that lie within easy reach of those who operate the system. It serves to fortify the same type of political machines that operated under the First Republic.I say nothing here — and do not mean to imply anything — about the motivations behind the choices made about the system architecture. I am merely evaluating the results of these choices. In other words — the thought may have a certain Hegelian tone to it — the control of the means of monitoring computerized elections serves to shroud democracy in yet another dialectical veil, beneath which the Zeitgeist moves in mysterious ways. If you pay attention, you can observe its course. For example, if you pay attention to the lobbying activities directed at legislators with respect to elections law.

He is referring to that convoluted package of election reforms — and mini-reforms of dubious Constitutionality– voted up without debate or analysis — and (pay attention, man!) signed into law by Lula — a Voto Seguro analysis of which I gist-translated for you in “The Blind Virtual Voting Act of 2003″.

Se menos de 30% dos brasileiros confia em políticos, e 99% confia nas máquinas programáveis pelas quais os elegem, então, dois entre três não estão atentos. Estão desprezando um detalhe importante: quem as programa. São programadores contratados por empresas contratadas por burocratas nomeados por políticos, e não por anjos caídos do céu. Contratados, em metade das eleições informatizadas que já tivemos, pela mesma empresa que a ECT (Correios) contratou com as irregularidades apontadas no Relatório 10/2005 da CGU, levado à CPI que deveria desbaratar a corrupção irrigada pelo esquema Marcos Valério. Empresa que tinha, na folha de pagamento da sua matriz, o mega-lobista Jack Abramoff, recém-condenado nos EUA por corrupção ativa e réu noutros cinco processos. Ou contratados, nas demais, por uma das três empresas que financiava a “casa do lobby de Ribeirão Preto”, onde o ex-todo-poderoso ministro Palloci se reunia com lobistas, na surdina em Brasília, segundo declarou seu assessor Rogério Buratti à Folha e ao Estadão (http://www.cic.unb.br/docentes/pedro/trabs/entrevistaDM.html)

If fewer than 30% of Brazilians trust politicians, and 99% trust the programmable machines through which they elect them, well, then, two-thirds of them are simply not paying attention. They are failing to ask the important question here: Who programs them? These are programmers hired by bureaucrats nominated by politicians, not angels fallen from heaven. Hired, in the midst of the computerized elections we have already held, by the same firm that the ECT (the mail service) hired irregularly, as described in Report 10/2005 of the federal auditor and investigated by Congress in the affair that led to the exposure of the Marcos Valério scheme. A company that listed mega-lobbyist Jack Abramoff on its payroll, the man recently found guilty in the U.S. of active corruption, who faces charges in five other cases.

I would have put that fact in the lede of my story. Who knows? Maybe there is a story to be written for the U.S. press on this. Because we do have laws against foreign corrupt practices, you know.

And we even decide to enforce them from time to time.

I will do it for $0.50 a word, minimum, obo. That includes a reason number of revisions, of course.

Idas e vindas na legislação eleitoral

Comings and goings in election legislation

Cabe lembrar que o chamado “escândalo do painel” derrubou, no palco do Senado em 2001, uma caixa-preta eletrônica de mágico que, ao partir-se, causou indignação popular pelo que revelou. Indignação que levou o Congresso Nacional a se ocupar com mudanças na lei eleitoral, para que meios de se recontar votos fossem introduzidos nas eleições gerais. Mas a iniciativa, proposta pelos senadores Roberto Requião e Romeu Tuma, encontrou feroz resistência nas autoridades a serem fiscalizadas. A iniciativa se tornou alvo de planejada ação desarticuladora do então presidente do TSE, monitorada por cidadãos atentos. Primeiro ele pediu, na prerrogativa de autoridade máxima da Justiça Eleitoral, que o Senado aguardasse suas contribuições. Enviou-as cinco dias antes do prazo para que a nova lei pudesse entrar em vigor na eleição seguinte, de 2002, alertando aos senadores da urgência.

It is worth remembering how the so-called “panel scandal” knocked down, on the floor of the Senate in 2001, a magical electronic black box, in an affair that caused a great deal of public outrage. Indignation that led the Congress to take up the matter of revising election law, so that recount mechanisms were introduced into the general electoins. But the initiative, sponsored by Sen. Roberto Requião and Romeu Tuma, encountered fierce resistance from the authorities whose activities would be monitored under these provisions, and was targeted for disruption by the president of the federal elections tribunal at the time, a scheme that was observed by attentive citizens. First, he asked the Senate, in his capacity as the head of the highest elections authority, to await input from his institution. He sent those in five days before the deadline for passing the bill if it were to take effect during the elections of 2002, telling the Senators they required urgent action.

“Urgent action” means “no time for analysis or floor debate.”

Dentre as dezesseis propostas de emenda que enviou, em papel sem timbre, uma esvaziava a eficácia fiscalizatória do voto impresso, antecipando, para a véspera da eleição, a escolha das urnas a serem recontadas por amostragem. O senador que relatou em urgência a favor dessas emendas, seguido pela maioria, ganhou do TSE, duas semanas depois, o governo do seu estado para um mandato de quinze meses, num processo que se arrastava há mais de dois anos. A eleição para governador que ele havia perdido em 1998 foi impugnada, já que as contas da campanha do vencedor não estavam lá essas coisas. Por uma dessas ironias da língua, o senador-relator que virou governador em meio mandato desbancou um tal de “Mão Santa”.

Among the 17 proposed amendments the TSE sent over, on plain paper rather than the TSE’s official letterhead, one of them effectively did away with the printed vote and provided for prior selection, on election eve, of the voting machines to be used as an audit sample. The senator who sponsored the amendments, under loose rules for matters declared urgent, was awarded, two weeks later, a 15-month mandate as governor of his state, in a proceeding that had dragged on for more than two years. The election of his opponent in a failed bid for governor in 1998 was impugned, based on a claim that the opponent’s campaign finances were not up to snuff. [untranslatable pun. Gist: Azeredo is a grotesque hypocrite.]

Depois, na Câmara, o presidente do TSE sugeriu que o projeto fosse votado com urgência, por acordo de lideranças e sem alterações, sob o argumento de que a lei poderia vigir ainda para a eleição de 2002. Depois de aprovada e sancionada a Lei Requião-Tuma (n. 10.408/02), ele então convidou a seu gabinete, no STF, congressistas interessados para informar-lhes do seu engano quanto ao prazo para vigência: aquela lei não poderia vigir em 2002. Para desculpar-se, oferecia seu empenho para que a Justiça Eleitoral “testasse” o mecanismo de fiscalização por voto impresso, em 3% das urnas em 2002, mecanismo que a Lei Requião-Tuma só tornaria obrigatório, no seu entendimento da vez, para as eleições de 2004 em diante.

Then, in the lower house, the president of the TSE suggested that the project be voted on as an urgent matter, through an agreement among party leadership and without amendment, arguing that the law could still go into effect for the 2002 election. After the Requião-Tuma Bill (No. 10,408/2002) was approved, he then invited congress members to his chambers at the Supreme Court to inform them of his disappointment at the effective date of the Bill: It would not be applicable in the 2002 elections. As an excuse, he offered to have the elections authorities “test” the printed vote mechanism in 3% of the voting machines used in 2002, a mechanism that the Requião-Tuma Law had made obligatory, as he saw it, for the elections in 2004 and beyond.

Raposa e galinheiro de votos

A fox in the electoral henhouse

Assim foi que a Justiça Eleitoral se propôs a “testar” o mecanismo que os legisladores haviam escolhido para fiscalizá-la, os legisladores aceitaram e, deu no que deu. Falhas nas instruções para se montar as impressoras de votos, falhas no treinamento de eleitores, e falhas no cadastro, com excesso de eleitores justamente em sessões que imprimiam votos, de eleitores desinformados. Falhas que geraram filas, frustrações e problemas, ignoradas pela mídia corporativa e pela auto-avaliação que o TSE fez do seu “teste”. Problemas que a auto-avaliação do TSE e a mídia corporativa culparam, obviamente, na medida fiscalizatória em si, e não na má-vontade do fiscalizado em testá-la. Auto-avaliação apresentada ao Congresso, no início de 2003, por quem viria a confessar, meses depois, ter pirateado artigos para a Constituição quando era constituinte em 1988 ([URL]).

Thus it was that the elections authorities proposed to “test” the mechanism that the legislature had chosen for monitoring its activities. The legislators accepted, with the results we observed. Failures in the instructions for how to set up the printers, failures in the training of voters, falhas in voter registration, with an excess of voters precisely in those sessions that offered the printed vote without proper instructions or information. Failures that led to long lines, frustrations and problems, ignored both by the corporate media and the self-evaluation that the TSE published of its “test.” Problems that the TSE evaluation and the corporate media blamed, naturally, on the audit mechanism itself, not on the bad faith of the agency it was designed to audit in “testing” it. The evaluation was presented to Congress in early 2003, and contained, as it would be admitted months later, had plagiarized draft articles for the Constitution of 1988.

Com base nesta auto-avaliação, um senador, cuja criatividade contábil havia dado origem ao esquema Marcos Valério, propôs então um projeto de lei que eliminaria essa medida fiscalizatória. O último resquício do direito de eleitores recontarem votos seria eliminado antes que pudesse ser exercido. Para substituí-la, o senador Eduardo Azeredo nos apresentou outra criatividade sua, por ele chamada de “registro digital do voto”. Como justificativa, diz o senador no diário oficial do Senado de 9 de maio de 2003, à página 10112:

Based on this TSE self-evaluation, one senator, whose knack for creative accounting had given rise to the Belo Horizonte Baldy money-laundering and embezzlement scheme, then proposed a bill that would eliminate this procedure. The last shred of voters’ right to recount votes would be eliminated before it was ever exercised. Instead, Sen. Azeredo provided us with another creative innovation that he called the “digital vote registry.”As a justification, the Sen. said, in the official diary, May 9, 2003, page 10,112:

“A substituição da impressão do voto de que trata o presente Projeto de Lei, pelo registro digital do voto em cada cargo disputado, com a identificação da urna eletrônica onde ocorreu o registro e a possibilidade de sua recuperação, seja em futuras análises, resguardando o anonimato do eleitor, decerto irá acrescentar segurança e transparência ao processo eleitoral, tornando dispensável a impressão do voto para conferência por parte do eleitor.”

“The substitution of the printed vote prposed by the current Bill by the digital record of the vote for each office, with the identification of the voting machine on which the vote was recorded and the possibility of recovering it, perhaps for future analysis, while protecting the voter’s privacy, will without a doubt increase the security and transparency of the elections process, making the printing of a record for the voter to check a dispensable measure.”

Decerto? Prossegue ali o senador, entusiasmado:

Without a doubt? The Senator goes on, waxing enthusiastic:

“Não passa despercebida a vantagem, inédita talvez no mundo, que é a possibilidade de análise, seja por estudiosos do processo eleitoral, seja pelos partidos políticos, seja pelos próprios canditatos e seus apoiadores, de cada registro [digital] de voto… Naturalmente esses estudos levarão ao aperfeiçoamento do processo eleitoral brasileiro com subsídios para a reforma política que ainda está por se discutir.”

“You will not fail to note the advantage, perhaps unique in the world, of the ability to analyze, whether by election researchers or by political parties, or by the candidates themselves and their supporters, each and every digital vote … Naturally these studies will lead to the perfection of the Brazilian elections process and support the political reform that is still to be debated.”

Está por se discutir, mas não durante a apreciação desse seu projeto. Um manifesto de professores, assinado por vários cientistas da computação e hoje com mais de duas mil adesões, pedindo que o mérito da sua proposta fosse debatido em audiências públicas, encaminhado ao Senado foi ali ignorado. Como ignorado também foi depois na Câmara, onde o projeto foi finalmente aprovado, e sancionado como Lei 10.504/03.

Political reform would be debated, but during the floor debate on this bill. A manifesto by academic experts, signed by various professors of computer science and now bearing the signature of two thousand endorsers, sent to the senate, was simply ignored. As it was, too, later on in the lower house, when the project was finally approved.

Maracutaias com lei eleitoral

Playing fast and loose with elections law

Na Câmara, tendo solicitado e recebido o projeto para fazer audiências públicas, o então presidente da comissão de Ciência e Tecnologia recusou-se a agendar audiências ou a receber signatários do manifesto. E omitiu-se em silêncio, quando o projeto desapareceu de sua comissão, sonambulando até a mesa do plenário em 27/09/03, de onde foi votado no dia seguinte, por acordo de lideranças em urgência urgentíssima. Depois de uma reunião fechada entre esses líderes e o presidente do TSE, e perante um único e isolado protesto de parlamentar, acusando a fraude na tramitação, enquanto o Banco Rural operava o esquema Marcos Valério ([URL]).

In the House, after requesting and receiving the go-ahead for public hearings on the bill, the then-head of the Science & Technology commission refused to schedule hearings or to meet with signatories of the manifesto. And he stood by silently when the project disappeared from his committee, sleepwalking its way to the agenda of the plenary session on Sept. 27, 2003, where it was voted on the following day, as a matter of extreme urgency, as agreed by the leaders of the political parties. After a close-door meeting between these leaders and the president of the TSE, and opposed with one, solitary protest from a member of congress, complaining of fraud in the procedure, at the same time the Rural Bloc was running the Belo Horizonte Baldy slush-fund scheme.

Sete meses depois, respondendo a solicitação de um partido, para que fosse regulamentado o acesso aos tais registros digitais, a Justiça Eleitoral se manifestou. Sobre a eficácia do substituto do voto impresso para fins de recontagens e estudos, despachou o plenário do TSE, por unanimidade em 11/5/04, na Resolução n. 21.744:

Seven months later, responding to a request from a political party that rules be made on access to these “digital records,” the elections authority took a stand. On the efficacy of trading the printed vote for the purposes of conducting recounts and studies, the TSE unanimously passed Resolution 21,744 on May 11, 2004:

“As questões que devem ser decididas pela corte podem ser divididas em três grupos:…(III) entrega de arquivos contendo o registro digital dos votos aos partidos políticos e demais interessados. Em relação à entrega dos arquivos contendo o registro digital dos votos… observo, nesse ponto que, por outro lado convenceram-me os motivos invocados para suprimir dessa divulgação a identificação da sessão eleitoral, a fim de preservar o sigilo do voto.”

“The questions that are to be decided by the court can be divided into three parts: … (III) the submission of files containing the digital registry of votes to political parties and other interested persons. With respect to this matter … I observe, on this point, that, on the hand, I have been persuaded by the arguments invoked for suppressing this handover of information, with identifying information about the precinct, based on the need to protect the secrecy of the vote.”

E já na eleição de 2006 suprimiu-se, pelo visto, foi toda e qualquer divulgação dos tais registros digitais. Agora por razões que, inominadas, iriam além do risco à privacidade. Através do Ofício 8.026, em resposta ao Diretor-Geral do TRE-AL, que solicitara a chave criptográfica de acesso ao arquivos contento os registros digitais dos votos da eleição 2006 naquele estado, o Diretor-Geral do TSE encaminha, em 5/12/06, despacho de uma técnica de terceiro escalão negando a tal chave “por questão de segurança.” Questão à qual faltou o “de quem, contra o quê”.

And in the elections of 2006, by all accounts, what was suppressed was any publication of said digital registries of votes. Thistime for reasons which, although they remain unstated, go beyond the privacy rationale. In Official Act 8,206, in response to the director-general of the regional elections court in Alagoas, which had requested an encryption key for accessing the files of the digital vote registry for Election 2006 in that state, the director-general of the TSE, on Dec. 12, 2006, dispatched a low-ranking technician to deny that request “for reasons of security.” The question that she failed to address was “security from whom, against what?”

Suprimida, também, por meios que ficam aquém da prática jurídica sadia. O diretor-geral do TRE-AL havia solicitado a tal chave para cumprir decisão superior, do Presidente da Comissão Apuradora daquele estado, desembargador Leandro Resende Martins, em resposta a requerimentos dentre os quais os de n. 7296, 7332 e 7338/06, lastreado em indícios de irregularidades naquele pleito. Nesse despacho a técnica em informática que assina, não sendo advogada nem bacharel de Direto, põe-se a interpretar o tal registro como algo que “corresponde exatamente à cédula de votação”, aquela em papel, calcando-se em dispositivos caducos do código eleitoral. O principal efeito desse desmando é bloquear a investigação de causas e produção de provas de irregularidades, como as levantadas no relatório do Prof. Clovis Fernandes do ITA, em [URL].

That information was suppressed as well, using means that surpass the limits sound judicial practice. The TRE-AL director had requested the key in order to comply with a decision by a higher authority, from the President of the Investigative Commission of that state, Judge Resende Martins, in response to various petitions … based on signs of irregularities in that election. In her dispatch, the IT technician whose signature appears on the document, not being a lawyer or having a bachelor’s in law, undertakes to interpret said registry of votes as something that “corresponds exactly to a paper ballot,” based on arcane provisions of the Elections Code. The principal effect of this denial was to block investigation into evidence of irregularities, such as those raised in the report by Prof. Clovis Fernandes of the Air Force Technological Institute (ITA), here.

Outros desmandos

Other obstructions

Desmando parecido, mas perpetrado em direção oposta na (des)ordem federativa, ocorreu em São Paulo, nessa mesma eleição de 2006. O plenário do TRE-SP decidiu contra o Art. 68 da Lei 9.504/97 e a Resolução TSE 22.332/06, diplomas que regulam o direito dos partidos e eleitores fiscalizarem a totalização, por meio de cópias de Boletins de Urna (BU) impressas nas mesas receptoras de votos. Com a informatização total, o BU impresso e assinado pelo mesário no ato de encerramento da votação é o único meio que restou a partidos e eleitores para fiscalizar a totalização dos votos, contra fraudes tais como a clonagem de urnas, o voto mal cantado e ataques a banco de dados, praticáveis na etapa totalização, na qual os BUs eletrônicos são decifrados e somados num banco de dados em computadores dos tribunais eleitorais.

A similar maneuver, but contrary to the direction of the federal (dis)order, took place in São Paulo in the same elections. The full TRE of that state decided, against Art. 68 of Law 9,504/97 and Resolution 22,232/06 of the TSE, on rules for granting the right of parties and voters to audit the tallying of votes, using copies of the Voting Machine Bulletins (BU), which are printed by pollworkers in charge of each precinct. Now that elections are completely computerized, the BUs are signed by the precinct captain as he or she closes the voting session, and is the only means that remains to parties and voters to monitor the tallying of votes, in a bid to prevent frauds such as voting machine “cloning,” proxy voting, and database hacking, to which the tallying phase is vulnerable. At that stage, the BUs are read and added in a computer database at the elections tribunals.

Na Seção Administrativa de 21 de Setembro de 2006, o TRE-SP aprovou a Representação 02/2006, da Secretaria de Tecnologia de Informação (STI) daquele tribunal, conforme ata [URL]. O responsável pela STI do TRE-SP, o mesmo que controla o banco de dados onde é feita a totalização daquele estado, informou incorretamente aos desembargadores do TRE-SP sobre o tamanho da bobina de papel das urnas eletrônicas. Disse, na Representação, que na urna não haveria papel suficiente para a impressão de BUs para até dez partidos, como determina a Lei e a Resolução citadas, e para o segundo turno caso houvesse. Disse-o desmentindo cálculos detalhados antes divulgados pelo TSE, a pedido de um partido que já havia sofrido esse tipo de sabotagem em eleições anteriores.

In its Administrative Session on Sept. 21, 2006, the TRE-SP approved Representation 02/2006, authored by the body’s information technology division (STI), in conformity with the published text. The person in charge of the STI in São Paulo, the same person who controls the database in which the votes are totalled, there, misinformed the judges of the TRE-SP about the size of the bobbin for the paper used with the machines. He said, in the Representation, that the machine might not have enough paper for printing the BUs for up to ten political parties, as provided by the Law and Resolutions cited above, and for a runoff election, if one was necessary. He said this in spite of detailed calculation that had previously been released by the TSE, at the request of a party that had already suffered this type of sabotage in previous elections.

Com medo de que, num eventual segundo turno, pudesse faltar papel em urna, os desembargadores aprovaram, por unanimidade e apenas 10 dias antes da eleição, a Representação 02/2006 da STI, causando a Diretoria Geral do TRE-SP a expedir, no dia seguinte, o Ofício-Circular 12.523, instruindo mesários a não entregarem BUs impressos a representantes de partido, apenas uma cópia a um “representante do comitê interpartidário”, figura inexistente no processo ou no direito eleitorais. Antecipando-se àquela decisão do TRE-SP, sua STI já havia diligentemente substituído os manuais de instrução para mesários, preparado pelo TSE, distribuindo em seu lugar uma versão que já excluia a entrega de BUs aos partidos, apesar da Lei 9.504/97 prever pena de 3 meses de detenção a oficial eleitoral que sonegar entrega de BU a fiscal de partido.

Afraid that the machines might run out of paper during a runoff election, the judges unanimously approved, ten days before the election, Representation 02, directing the TRE-SPs administrative directorate to publish Circular No. 12,523, instructing precinct captions to not provide party representatives with printed copies of the BUs, but to provide only a single copy to “a representative of the interparty committee,” something that does not exist in electiosn procedures or elections law. Anticipating the decision of the TRE-SP, the STI there had already diligently replaced the manuals for precinct captains, prepared by the TSE, with a version that omitted the duty to turn over the BUs to the parties, even though Law 9,504/97 provides a penalty of up to three months in prison for an election official who withholds the document from a party monitor.

III Os fins e os meios

The Ends and the Means

Se houver fraude, sem fiscalização eficaz é impossível mostrá-las. E se não houver, sem fiscalização eficaz é impossível mostrar que não houve. Sem fiscalização eficaz, porém, uma coisa é certa: qualquer bancada pode se eleger, com ou sem votos reais, corrupta e impunemente. Especialmente em eleições proporcionais sem o voto distrital. Quem julga impugnações são os mesmos que controlam o processo, a contagem invisível de votos, as regras para sua fiscalização externa, e o acesso aos meios de prova. Ainda, com um sistema totalmente informatizado, no qual 99% dos eleitores confiam sem fiscalizar, sem querer fiscalizar, e sem achar necessário que interessados possam efetivamente fiscalizar, outra coisa também é certa. Os responsáveis diretos pela execução do processo e da contagem, nas secretarias de informática de tribunais eleitorais e nos seus fornecedores de softwares e serviços, sabem disso.

If fraud occurs, it cannot be detected without effective monitoring. And if no fraud occurs, it is impossible to certify that fact without effective monitoring. Without effective monitoring, however, one thing is certain: Any political faction can elect itself, with or without real votes, corruptly and without getting caught and punished. Especially in proportional elections without district representation. The judges who hear such cases are the same ones who control the process, the invisible vote-counting procedure, the rules for external audits, and access to the means of evidence-gathering. Even in a totally computerized system, in which 99% of the voters have faith, even without monitoring, or wanting to monitor, one other thing is certain: The persons directly responsible for carrying out the voting and the counting, in the IT divisions of the TREs and at their software and services supplies, know this full well.

E por certo eles sabem não é só disso. Sabem também dos mistérios do santo byte. De como a manipulação interna e oculta do sistema pode lhes render ainda mais poder. Por coincidência ou não, dentre eles estão os mais fervorosos pregadores da seita do santo byte. Para os quais, pelo recente exemplo paulista, depender de papel é dos piores pecados. Dentre eles estão os que, quando surgem vendedores de soluções mágicas, correm a zombar aos quatro ventos, com falácias e impropérios, de quem se acautela com o virtual. Estão os que, quando surgem críticas ou denúncias, correm a cochichar em certos ouvidos, de magistrados pudorados pela escassez de conhecimentos informáticos: “estão atacando a vossa honra, a vossa autoridade, etc.!” É com essa tática, incendiária da vaidade humana e do corporativismo elitista, que vamos todos, cada vez mais, nos tornando reféns dessa aventura desmaterializadora da democracia tupiniquim.

And they doubtless know other things as well. They also understand the mysteries of the holy byte. How hidden, inside manipulation of the system can bring them even more power. Coincidence or not, some of the most fervent evangelists of the sacred byte are to be found among these persons, for whom, if the São Paulo case is any indication, depending on paper is a mortal sin. Among them you will also find those who, when magical new vendor solutions arise, run off to proclaim them to the four winds, spouting fallacies and insults at those who caution against the risks of the virtual world. These are the people who, when criticisms or accusations arise, go running off to whisper in certain ears, the ears of judges who are embarrassed by their own lack of knowledge about technology: “they are attacking your honor, your authority!” and such. This tactic, which plays upon human vanity and the elitism of the judiciary, is what increasingly holds us hostage to this adventure in vanishing democracy here in Brazil.

Muitos me perguntam por que, então, eu não vamos a público propor aprimoramentos, ou demonstrar como é fácil fraudar de dentro esse sistema, se assim o afirmo em vários artigos (por exemplo, em [URL]). Como têm feito outros cientistas nos EUA, com as urnas de lá, de modelos semelhantes e do mesmo fabricante. Simples. Demonstrar como se pode fraudar eleições, como fez o prof. Ed Felten de Princeton em 4 minutos, com a máquina da Diebold ao vivo na CNN, aqui seria crime eleitoral, e lá não. Alguém se habilita, com os roteiros já publicados?

Many have asked why, then, we do not go public to propose improvements, or demonstrate how easy it is to commit fraud inside this system, if that it what I defend in various articles (for instance, this one). As other scientists have done in the U.S., with their voting machines, which have the same manufacturer and are similar in model. The answer is simple. To demonstrate how to commit election fraud, as Prof. Felten of Princeton did in 4 minutes, is a crime in Brazil. There, it is not. Is anyone permitted to do it, using the methods already published?

Quanto aos aprimoramentos propostos em prol da eficácia fiscalizatória, esses têm sido negligenciados ou adaptados, no caso, com alterações técnicas cujo efeito redunda em ineficácia camuflada (vide [URL]). Para animarem espelhos e fumaças mais realistas, dos quais, na última moda está agora o rigor com as contas de campanha de candidatos.

As to constructive proposals for more efficient elections monitoring, these have either been neglected or else adapted, as the case may be, with technical alternations that produce greater inefficiency disguised as an improvement (see [URL]). In a bid to animate more realistic smoke and mirrors, in which area the latest fad is taking a rigorous approach to the campaign accounts of the candidates.

Legislação eleitoral como instrumento político

Elections legislation as political instrument

Rigor esse que, aplicado seletivamente, redunda em eficaz instrumento político. Serviu já para beneficiar, na dança das cadeiras envolvendo a de governador do Piauí em 2001, o relator no Senado favorável às emendas, propostas pelo então presidente do TSE, que renderam ineficazes as medidas fiscalizatórias da Lei eleitoral Requião-Tuma. E pode servir para indultar também. Por exemplo quem propôs, com lastro em sua vasta experiência na informática, o bode na sala que expulsou do ordenamento eleitoral brasileiro aquelas medidas fiscalizatórias, ileso (até aqui) arquiteto do esquema Marcos Valério e do tal registro digital do voto.

This rigorous approach, selectively applied, is, in effect, a useful political tool. It has already served, in the dance of musical chairs involving the governor of Piauí in 2001, to benefit the Senator who favored the amendments proposed by the president of the TSE, which neutralized the oversight provisions of the Requião-Tuma law. And it can be used to reward as well. For example, the person who proposed, based on his vast experience in computer science, the measure to expunge oversight from Brazilian elections is the (as yet) untouched architect of both the Belo Horizone Baldy scheme and the so-called “digital record of the vote.”

O clima atual ajuda a esse instrumento, pois também está na moda criminalizar e descriminalizar pela mídia. Criminalizar, por exemplo, o comércio de informações sobre corrupção e corruptos, o que em si não é crime, e açodar a absolvição de suspeitos quando convém pintá-los vítimas desse comércio, de dossiês e denúncias. Para as minhas denúncias, conto com a sorte do Google ser (ainda) gratuito, mas para a cidadania, conto com o azar delas contrariarem interesses corporativos. De qualquer forma, como esses interesses parecem ocupar-se agora da origem de dinheiros, que mal pergunte, mais uma vez: De onde veio o dinheiro para dar início a essa aventura desmaterializadora da democracia tupiniquim?

The current climate favors the use of this political tool, because it is also currently in fashion to criminalize and decriminalize using the media. Criminalizing, for example, the buying and selling of information on corruption and the corrupt, which is not in itself a crime, and absolving others of suspicion when it is convenient to paint them as victims of this traffic in information. For my own complaints, I am fortunate enough to be able to count on Google being free (so far), but for most Brazilian citizens, the risk is that they might interfere with corporate interests. In any event, given that these corporate interests seem to be interested in the origin of money, why do they not spend more energy asking: “Where did the money come from to get this adventure in disappearing democracy rolling?”

No livro “O Voto Informatizado: Legitimidade Democrática”, de autoria de um ex-secretário de informática do TSE, publicado em 1997 pela editora Empresa das Artes (novamente, ironia da língua?), relata-se, sempre no gerúndio, que metade do custo inicial para implantação do sistema, cerca de 250 milhões de dólares, viria de um projeto do Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BIRD, a quem o presidente do TSE prometera oferecer depois o uso do sistema a outros países.

In the book “The Digital Vote: Democractic Legitimacy,’ by a former IT secretary of the TSE, publishe in 1997 by Empresa das Artes ([more pun-related comments –Ed]), it is reported, always using the gerund, that half the cost of implanting the system, nearly $250 million, is coming from a project of teh Interamerican Develoment Bank (IBD), to whom the president of the TSE has promised to help deliver the Brazilian system to other countries. 

Enquanto isso…

In the meantime …

Entretanto, na lista de projetos no site do BIRD, em [URL] não consta (quando consultado) nenhum tal financiamento ou promessa. Doutra feita, acesso a certos contratos que o TSE tem firmado para comprar urnas, terceirizar softwares e serviços, contratos que deveriam ser públicos, têm sido negado a fiscais de partido em tempo hábil para detectarem possíveis irregularidades. O da eleição de 2002, por exemplo, foi negado a dois partidos que o solicitaram, por mais de dois anos.

However, the list of projects found on the IBD Web site, at [URL] does not include any reference to such financing or such a promise. Further, access to certain contracts that the TSE has signed for the purchase of voting machines and the outsourcing of software and services — contracts that ought to be public — has been denied to monitors from political parties in a timely manner that might allow possible irregularities to be detected. In Election 2002, for example, two parties that made such a request had to wait for more than two years. 

See also

Doutra feita, enquanto a propaganda oficial fala do interesse de vários países no sistema do TSE, os detalhes falam noutro tom. Sabemos que o TSE vem insistindo com outros países para que experimentem o seu sistema, e que muitos vêm rejeitando a oferta, à exceção única do Paraguai. A Argentina já o dispensou três vezes, porque não poderia fiscalizar nem recontar, mas o TSE insiste. O TSE inclusive já bancou, com dinheiro provavelmente do contribuinte brasileiro, uma eleição de mentirinha nalgumas sessões, em paralelo à oficial, para los hermanos irem se acostumando à “modernidade eleitoral”, mas los hermanos resistem.

Further, while the official propaganda speaks of the interest of various nations in the TSE’s system, the details tell another story. We know that the TSE has been insisting that other countries try its system, and that many have rejected the offer, the only exception being Paraguay. Argentine has already passed three times, because the system cannot be monitoring or used for a recount, but the TSE insists. The TSE has even banked, with money that probably comes from the Brazilian taxpayer, a fake election in certain precincts abroad, so that our hermanos can get accustomed to “modern elections.” But our hermanos keep holding out.

Nos EUA e na Europa, caminha-se em direção oposta. Cada vez mais estados e países proíbem eleições sem possibilidade de recontagem por eleitores comuns. E o Equador, cuja autoridade eleitoral assinou contrato com um ex-assessor técnico do TSE para terceirizar a informatização da eleição de 2006, se arrependeu depois do 1º turno, a julgar pelas ações judiciais que lá correm a respeito, inclusive com o confisco de passaporte de um pregador do santo byte.

The U.S. and Europe are heading in the opposite direction. More and more states and nations are banning elections without the possibility of a recount by common voters. And Ecuador, whose election authority hired a former technical adviser to the TSE to outsource the computerization of its 2006 election, was sorry it had, after the first round of the elections there, judging from the lawsuits that have resulted, which include the confiscation of the passport of an evangelist of the holy byte. 

… O PT

The PT

A julgar pela forma como o Partido dos Trabalhadores foi tratado por adversários, pela mídia e por autoridades eleitorais nas eleições de 2006, há que se indagar da prudência de se confiar tanto, e tão cegamente, num processo e sistema eleitorais tão eivados de incertezas e tão dependentes, nos seus resultados, da honestidade de tão poucos. O argumento de que a informatização eleitoral ajudou o PT a crescer, e portanto, que o partido deva apoiar incondicionalmente as ações e desejos das autoridades da Justiça Eleitoral, inclusive em suas interações com os outros ramos de poder republicano, já defendida publicamente por técnicos dos quadros do partido, talvez já tenha esgotado sua lógica e sua eficácia.

To judge from the treatment the PT received at the hands of adversaries, the media and the elections authorities in 2006, you would think it would think twice about having trusted so much, and so blindly, in an elections system so riddled with uncertainties and so dependent, with respect to its results, on the honesty of such a small group of people. The argument according to which the computerization of elections helped the PT to grow and therefore the party should unconditionally support the actions and preferences of the elections authority, even in its interactoins with other branches of republican government, which has been publicly defended by technicians from the party rank and file, may have outlived its usefulness and its logic. 

I have seen PT party hacks evangelizing the savior machine with the best of them, this is true.  Which kind of blows my mind. These people tend to be quite intelligent and rational, insofar as I have interacted with them.

Then, again, however, our own PT vereadora is a former MTV veejay and a neo-ayahuasqueiro, as I never tire of pointing out.  When Mr. Genro talks about “refounding” the party, I sometimes think I know exactly the kind of person that is on his secret list for the Stalinist purge.

The day-trippers and the Edelman wannabes.

Discutir reforma política sem discutir a concentração de poderes que se agravou, nesse ramo do Estado brasileiro, com a aventura desmaterializadora da democracia tupiniquim, fazendo sua lógica política assemelhar-se à da República Velha, seria, a meu ver, improdutivo e perigoso para o futuro de tão frágeis instituições. Seria a História se repetindo, com um certo jeito de farsa.

Debating political reform without debating the concentration of powers, which has gotten ever more serious, in this branch of the Brazilian state as the adventure in vanishing democracy has progressed, would be, in my view, unproductive and dangerous for the future of our fragile institutions. It would be History repeating itself, this time with a certain element of farce.

If Prof. Rezende, who has better resources than I have, cannot find out where the money comes from to fund this system, no wonder I cannot. And I have tried. But I continue to nibble around the edges of the vendor contracts that you can, occasionally, when the ODBC driver is not on the fritz, get your hands on.

I also think if you compare this case with the Hildebrando-Choicepoint case in Mexico, and prick up your ears at the mention of Abramoff, and read about the U.S. Ambassador’s friendly visit recently to the Emperor of Mellow there at the TSE, and also follow the Emperor of Mellow’s recent votes in the Supreme Court — he hastened to agree with the measure to table the landmark Extra-Large Pizza With Everyone On It decision   — I think you start to get a glimpse of the hypothesis that Prof. Rezende more or less leaves implicit here.

See also Notes on the Great Caixa Dois Conspiracy Theory: Spidering The NED-IRI Ecosystem and “I’ve Seen This Movie Before”.

Look, you Brazilians can choose your leaders using sumo wrestling matches if you like — I know many of you would prefer a better way, but in theory, that is up to you, the sovereign Lusophone human biomass.

But when my sacred gringo taxpayer dollars start backing one of the fat guys against the other, and filtering into slush funds from the Caymans accounts of rhetoricians of the technological sublime who really do seem to be out to ratfuck any government who dares prefer the Penguin to the Redmond Bulldogs, a little drum starts beating in my head. And the rhythm goes something like: Foreign Corrupt Practices Act.

How about we dust that sucker off and apply it to some skeevy consultants, see what we come up with.

My vote in the next election goes to the muckraking candidate — regardless of party — who has bagged the most.


The other Marcus Aurelius: “The object of life is not to be on the side of the majority, but to escape finding oneself in the ranks of the insane

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