Dos Santos: “Media Owners Are the New Generalíssimos”


“The Brazilian ex-Leviathan: From the dispersed vote to concentrated patronage-politics”

It is the same problem that revolutionary parties present. Democratically, it is necessary to permit the formation of competing parties with diverse views. But to the extent to which this right ought to be, or can be, granted to parties whose objective is to do away with the very institutions that guarantee them this right — this is a complication for democratic theory. So this is the problem of the press nowadays, and not just in Brazil: How to reconcile the two roles the news media plays. First, to the extent that it is a private party expressing what happens in the world and the opinion of the population, and second, to the extent that it behaves as a political actor, and there are currents of opinion demanding public accountability from it.

“They think that Abril supports Cardoso’s plan of government. They have it wrong. It is not Abril who supports Cardoso. It is Cardoso who supports Abril’s plan of government.” –Roberto Civita, Grupo Abril

A IMPRENSA NO BRASIL VIROU PARTIDO POLÍTICO (“the Brazilian news media has become a political party”): Paulo Henrique “Daniel Dantas really bugs me!” Amorim interviews Wanderley Guilherme dos Santos.

The FGV political scientists’s sort of generally neo-Weberian writings on Brazilian institutional development, along with Elio Gaspari’s historical writings, have had a big influence on my (still totally half-assed, but I am working on it) understanding of contemporary Brazil.

Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil.

In no serious democracy in the world do conservative newspapers of low technical quality, and even sensationalist, and single TV network have the importance they have in Brazil.

Either he is somewhat wrong about this — have you read the Wall Street Journal editorial pages lately, Professor? Watched Fox News’s competitors (Wolf Blitzer) adopting the gabbling styling of Murdoch’s Marauders? — or else the United States of America is no longer to be considered a serious democracy.

Now there’s a sobering thought.

A imprensa no Brasil se considera indestrutível porque ela resiste à democratização, à republicanização do Brasil.

The Brazilian news media thinks it is indestructible because it resists the emergency of democratic, republic government in Brazil.

Os militares brasileiros hoje se submetem mais à lei do que a imprensa.

Brazilian military men are more deferential to the law these days than the news media is.

Para Wanderley Guilherme dos Santos, restou à imprensa brasileira ter a capacidade de gerar crises, instabilidade política.

In the view of Professor dos Santos, the only thing the Brazilian news media has left is its capacity to generate crisis and political instability.

No Governo Lula, a imprensa pratica o “quanto pior melhor”, que, antes, atribuía à esquerda: ela combate políticas que, sabe, são benéficas ao país, mas não tolera que sejam praticadas por um líder comprometido com as classes populares.

During the Lula government, the press has taken to applying the principle of “the worse, the better,” which it once attributed to the left: It resists policies that it knows are beneficial to the nation, because it will not tolerate those policies being implemented by a leader committed to the popular classes.

“Isso (o compromisso com as classes populares) é algo que irrita e, conseqüentemente, faz com que aumente a disposição da imprensa para acentuar tudo aquilo que venha a dificultar e comprometer o desempenho do governo”, continuou o professor.

“This (commitment to the popular classes) irritates them, and so the news media is increasingly inclined to focus on that which impedes and undermines the performance of the government,” dos Santos says.

Essa entrevista faz parte de um projeto sobre a mídia conservadora (e golpista!), que chegará ao seu final em 2008.

This interview is part of a serious on the conservative (and coup-supporting!) media that will meet its maker in 2008.

A number of broadcast concessions are up for renegotiation, the broadcast concession process is up for reform, and new digital TV and public TV systems are in the works.

The interview follows — hastily translated, draft-quality, mind you:

Quando se fala em mídia como o “Quarto Poder”, qual é a primeira coisa que lhe vem à cabeça?

When the media is described as the Fourth Estate, what is the first thing that comes to your mind?

A primeira coisa que me vem à cabeça: não é uma particularidade nacional. Porque, na verdade, na teoria democrática clássica, não havia previsão para o aparecimento de um lugar institucional com poder político relevante. Então, você tinha o Parlamento e você tinha o Executivo. O Parlamento podia ser dividido em duas Casas, como quando tem Senado e Câmara, ou ser unicameral. O Executivo podia ser ou de gabinete ou uma Presidência da República. Mais o Judiciário, quando árbitro dos conflitos eventualmente surgidos entre as duas estâncias anteriores. Mas não havia, não há previsão em nenhuma teoria, de algo, de uma instituição que veio a ser a imprensa. Como também, aliás, não havia para as Forças Armadas. Não se concebia que as Forças Armadas viessem a ser um ator político relevante.

The first thing that comes to mind? This is not something peculiar to Brazil. Because in fact in classic democratic theory, there was no provision for the emergence of an institutional role with real political power [for the press]. So you had parliament and you had the executive. The legislature might be bicameral or unicameral. The executive can consist of a cabinet with a prime minister or a presidential system And the  judiciary, as the arbiter of conflicts between the other two powers. But no classical democratic theory foresaw the emergence of an institution such as the news media has become. Much as it did not foresee such a role for the armed forces. It was never foreseen that the armed forces would become a relevant political actor.

Mas, sobretudo, a imprensa. Porque, de certo modo, ela encarnaria não um poder, mas a vigilância do poder. Era a garantia do direito de opinião, a garantia do direito de expressão de idéias e a garantia de vigilância dos poderes constituídos. Então, era muito mais um órgão defensivo e reflexivo do que interferente. A partir do momento em que você tem uma sociedade de massa, ou seja, o tamanho do eleitorado traz novidades para o funcionamento da democracia – ninguém jamais imaginou eleitorado de mais de dez milhões de pessoas –, isso também trouxe uma modificação do papel das instituições. Em princípio, elas interagem com estas massas que têm peso.

But above all, the news media. Because in a certain way, it embodies, not a power in its own right, but a watchdog of power. The guarantee of the freedom to opinion, to express ideas and keep close watch on the constituted powers of government. So it was much more a defensive and reflective role than an interventionist one. From the moment you have a mass society, that is, when the magnitude of the electorate introduces new elements into how democracy works — no one ever imagined an electorate of more than 10 million persons — this also transformed the role of institutions. In principle, they now interact with those masses of people that have political clout.

O resultado foi que aquelas instituições que, de certa maneira, condicionam e influenciam a formação de opinião das massas, fazendo com que a disposição delas se altere ou se incline numa direção ou em outra, aquelas instituições passaram a ter um papel de importância.

The result was that these insitutions, which, in a certain way, condition and influence mass opinion, making it lean one way or the other, these institutions starting playing a significant role.

A imprensa, os órgãos de comunicação e informação, na medida em que condicionavam e orientavam a inclinação desta população, e o peso delas se tornando cada vez maior dentro do funcionamento das democracias, fizeram com que esta instituição, a imprensa, passasse a ter um papel híbrido: de um lado, refletia o real; e de outro, ao mesmo tempo, interferia, interfere e condiciona as alternativas deste real.

The press, the agents of communication and information, as they increasingly came to condition and orient popular opinion, and its influence in democratic societies grew, started to play a hybrid role: On one hand, it reflected the real; on the other hand, at the same time, it interfered, it interferes and conditions the alternatives to this reality.

É necessário deixar claro que isso não aconteceu por nenhuma conspiração, nenhum plano previamente estipulado. Foi assim, numa democracia de massa, com o problema do populismo, por exemplo. Este novo papel desempenhado pela imprensa, envolvida no seu papel constitucional, teórico, de expressão de opinião, controle e vigilância da ação dos poderes públicos, e, ao mesmo tempo, cobrar responsabilidade desta instituição pública, tem que ter norma a que deva obedecer, tem que ter instâncias de julgamento – com o qualquer agente público. E não se trata de julgamento estritamente policial, trata-se de julgamento político. Não existe consenso sobre como conciliar esta responsabilidade, que deve ser cobrada neste ato público, com o que é fundamental também numa democracia – que é o respeito à liberdade de imprensa, à liberdade de opinião.

We should make it clear: This did not come about as the result of some conspiracy or prior plan. So it was, for example, in a mass democracy, with the problem of populism. This new role taken on by the press, in terms of its theoretical constitutional role, of expressing opinion, monitoring and overseeing the actions of public institutions, and at the same time, demanding accountability, needs to have norms that it follows, needs to have due process and deliberation — just like any other public actor. I am not just talking about due process in the criminal justice sense, I am talking about political deliberation and judgment as well. There is no consensus on how to reconcile this responsibility, which we should demand of this public actor, with another fundamental democratic value, the respect for freedom of the press, for freedom of opinion.

I tend to call this the “Rapture dilemma” or “the problem of faith-based engineering.”

People who believe that the world is going to end next week make poor long-term risk managers.

In which case, is it discriminatory and antidemocratic to refuse to hire or elect them as long-term risk managers because they believe the Rapture is imminent?

Do you want people who refuse to believe in the laws of physics repairing your jet aircraft fleet, for example?

Do you want to get your news from imaginary gnomes, the way that PBS apparently now does? See

Quer dizer, a liberdade de expressão de opinião é crucial e essencial na definição do que é democracia. Quando esta expressão de opinião pode de alguma maneira trabalhar contra a democracia, cria um problema. É o mesmo problema que se coloca em relação a partidos revolucionários. Democraticamente, é necessário que se permita a organização em partidos as diversas opiniões, correntes. Agora, em que medida este direito deve ser ou pode ser assegurado a partidos cujo objetivo é fazer com que desapareçam as instituições que permitam que ele exista – isso é uma complicação numa teoria democrática. Então, esse é um problema contemporâneo da imprensa, não é só no Brasil: como conciliar os dois papéis que a imprensa tem. Primeiro, como instituição da sociedade privada de exprimir o que se passa no mundo e a opinião da população. Por outro lado, na medida em que se comporta como ator político, ter instâncias que cobrem responsabilidade política dessa instituição.

That is to say, freedom to express opinion is crucial and essential to defining what democracy is. When this freedom shows that it can, in some ways, work against democracy, it creates a problem. It is the same problem that revolutionary parties present. Democratically, it is necessary to permit the formation of competiting parties with different views. But to the extent to which this right ought to , or can be, granted to parties who objective is to do away with the institutions that grant them this right — this is a complication for democratic theory. So this is the problem of the press nowadays, and not just in Brazil: How to reconcile the two roles the news media plays. First, to the extent that it is a private party expressing what happens in the world and the opinion of the population, and second, to the extent that it behaves as a political actor, and there are currents of opinion demanding political accountability from it.

Este problema já foi resolvido em algum país ?

Has any nation solved this problem yet?

Institucionalmente, não. O que você encontra é uma evolução da cultura política e também do poder da sociedade civil, do poder privado. Na verdade, até agora não se criaram instituições consensuais para a solução deste problema. Tem sido resolvido pela idéia gradativa de redução da importância da imprensa, como condicionador das atitudes da população. Isso é o que tem acontecido nas sociedades ricas, porque dependem cada vez menos das políticas de governo. Porque são ricas, porque a sociedade é abundante, então, a opinião que os jornais e as televisões começam a distribuir – dizer que o governo é isso, que o governo é aquilo, isso não tem conseqüência sobre a vida privada dos cidadãos. E por isso mesmo a opinião da imprensa deixa de ser relevante. Então, o que tem acontecido nos países mais estabilizados, não é que se tenham criado instituições de controle ou de chamada à responsabilidade, mas que os jornais e as televisões vêm perdendo importância.

Institutionally, no. What you find is the evolution of a political culture and the power of civil society, or private power. In fact, no one has yet created consensus-based institutions to solve this problem.

The Press Complaints office in Britain is an interesting attempt, though, I tend to think.

But it’s true: Until the Bush ibn Bush gang arrived and used the social contract to wipe its ass, the word of honor of news organizations that they would not intentionally disinform you could generally be relied on. Journalists were self-regulating and reinforced a culture of responsibility to the reader in their traditions of professional apprenticeship.

Nowadays, the pump don’t work because the vandals took the handle.

It has been resolved by the idea of gradually decreasing the importance of the press as a determinant of public opinion. This is what has happened in wealthier societies, because less and less depends on government policies. Because the society is wealthy, abundant, the opinions that newspapers and broadcasts distribute — saying the government is this, the govermennt is that — have no effect on people’s private lives. For this very reason, the opinion of the news media becomes less relevant. So what has happened in more stable countries is not that institutions of control or so-called accountability have been created, but that newspapers and television have lost their influence.

Competition and diverse information markets also help.

Especificamente no Brasil, como é que esse cenário se desenvolveu? Quem se aproveitou?

In Brazil specifically, how did this scenario play out. Who benefited from it?

Quem se aproveitou eu não sei. No Brasil, você tem uma circunstância peculiar que é o fato de que as empresas jornalísticas têm os interesses empresariais também fora do circuito de informação. Então, isso faz com que as opiniões da imprensa não se apoiem apenas, como se diz, pelos preceitos de seus comentários, mas pelo interesse de matérias econômicas também, que são defendidos sob a desculpa, o contexto de que está sendo defendido o interesse da população. Então, este aspecto é o aspecto que não se encontra muito nos países desenvolvidos: a distância entre empresas, empresas jornalísticas que têm interesses comercias e empresariais, além dos interesses jornalísticos.

As to who benefited, I have no idea. In Brazil, you have this peculiar circumstance which is the fact that news organizations have business interests in areas other than providing information. So this means that the opinions promoted by the news media are based not merely, as we say, on their editorial preconceptions and prejudices, but also by material economic interests that they defend, on the pretext that what is being defended is actually the public interest. So this is something you do not see a lot of in developed countries: the distance between commercial news organizations that have other commercial and business interests aside from journalism.

Rupert Murdoch buys the Wall Street Journal. Hello!

E isso cria uma situação muito particular, porque, afinal de contas, os interesses econômicos e empresariais de proprietários de jornais deviam ter suas instâncias de defesa e não utilizar a imprensa para isso. Mas, esta é a peculiaridade do Brasil. E é isso o que se mistura com freqüência no Brasil: as campanhas políticas desenvolvidas pela imprensa, sob o pretexto de que são questões que se quer públicas, mas, na verdade, são interesses privados dos próprios empresários jornalísticos.

This creates a really unique situation, because after all, the economic and business interests of news media owners have their own defense mechanisms aside from using the press. But this is where Brazil is peculiar. This is what you seeing getting mixed up together so frequently here: Political campaigns impelled by the press, on the pretext of dealing with the public interest when they are reallyl about the private interests of the media owners themselves.

Paulo Henrique Amorim costuma dizer que em nenhuma democracia importante do mundo os jornais e uma só emissora de TV têm a importância política que têm no Brasil.

Amorim likes to say that no signficant democracy in the world do you have newspapers and a single TV network with such political clout as you have in Brazil.

Quer dizer, só em países mais ou menos parecidos com o Brasil. Fora países, digamos, com renda per capita inferior a 30 mil dólares, fora países desta faixa, isso não existe. Ou seja, em todos os países (com renda superior a 30 mil dólares), a imprensa não tem esta capacidade de criar crises políticas, como tem nos países da América Latina.

That is to say, in countries more or less similar to Brazil. Except in countries with, let us say, per capital income of less than $30,000, outside of countries in that range, this does not exist. That is, in all countries with more per capita income than that, the press does not have this power to create political crises, as happens in Latin American nations.

Aqui no Brasil, com esta importância política que os jornais e a Globo têm, como é que eles exercem este poder?

Here in Brazil, with the political importance that the newspapers and Globo have, how do they exercise this power?

O modo tradicional de exercer o poder em países como o Brasil, e isso tem acontecido historicamente com freqüência, é a capacidade que a imprensa tem de mexer na estabilidade, ou seja, de criar crises, cuja origem é simplesmente uma mobilização do condicionamento da opinião pública. O que a imprensa nos países da América Latina, e particularmente no Brasil, tem é a capacidade de criar instabilidades. É a capacidade que a imprensa tem de criar movimentação popular, de criar atitudes, opiniões, independentemente do que está acontecendo na realidade. Isso é próprio de países latino-americanos, mas particularmente no Brasil, em que as empresas jornalísticas têm poder econômico e capacidade e disposição para a intervenção política. Então, a arma da imprensa no Brasil, o seu recurso diante dos governos: esta capacidade de criar instabilidade política.

The traditional way of exercising power in countries like Brazil, and this has happened often, historically, is the ability of the news media to undermine stability, that is, to create crises, whose origins are simpling the mobilization of the power to condition public opinion. What the Latin American, and particularly the Brazilian, press, has the power to do is create instability. … In Brazil in particular, news organizations have the economic clout and the will to intervene in the political sphere. …

Como é que o senhor vê o papel da mídia no governo Lula?

How do you see the role of the media in the Lula era?

Tem dois aspectos. O primeiro aspecto é fato de o governo Lula ser um governo inédito no Brasil. É realmente um governo cuja composição de classe, cuja composição social é diferente de todos os governos até agora. Isso não foi e dificilmente será bem digerido. Agora, em acréscimo a isso é que, ao contrário do que se teria esperado ou gostariam que acontecesse, este é um governo que até agora tem se mantido fiel à sua orientação original, independentemente das discussões internas do grupo do PT. A verdade é que as políticas do governo têm prioridades óbvias, que são as classes subalternas. Isso é algo que irrita e, conseqüentemente, faz com que aumente a disposição da imprensa para acentuar tudo aquilo que venha a dificultar e comprometer o desempenho do governo.

It has two aspects. The first is that the Lula government is without precedent in Brazil. It really is a government whose class composition, whose social composition is different than any that have come before. This is not easily digested. And, in addition, contrary to expectionsor what they would have liked to have happened, this is a government that up to now has maintained faith with its original orientation, despite internal dissension inside the PT. The fact is that the government’s policies have an obvious orientation toward the subaltern classes. This is an irritant, and consquently, the press is more and more disposed to try to sabotage and undermine the performance of the government.

Em que outros episódios da Historia do Brasil a imprensa usou a arma da instabilidade ?

In what other episodes of Brazilian history has the press used destabilization as a weapon?

No Brasil, tivemos em 1954, com a crise que resultou no suicídio de Vargas, em que tudo foi utilizado. Documentos falsos que foram apresentados como verdadeiros, testemunhos de estrangeiros que seriam associados a confusões internas…

In Brazil, we had 1954, with the suicide of Vargas, in which all stops were pulled out. False documents presented as real, testimony from foreigners reportedly mixed up in internal conflicts …

Houve em 1955, na tentativa de impedir a posse de Juscelino Kubitschek. E em 1961, na crise de Jânio, na sucessão do Jânio. E em 1964.

In 1955, you had the attempt to prevent the assumption of President Kubitschek. In 1961, the crisis over the succession to Jânio. And 1964.

Depois, durante o tempo do período autoritário, evidentemente, houve uma atuação explícita da imprensa. Não se falava a favor, mas também não se desafiava. Com o retorno da democracia, a imprensa interveio outra vez, na sucessão de Sarney, com todas as declarações e reportagens absolutamente falsas em relação ao candidato das forças populares, que já era Lula. Isso se repetiu nas duas eleições de Fernando Henrique, mas mais moderadamente. Foi bastante incisiva durante a primeira campanha. Na segunda, a imprensa se comportou razoavelmente. Houve certas referências, mas nada escabroso.

Afterwards, during the authoritarian period, obviously, you had the press playing an explicit role. They did not speak in favor of it, but they also did not defy it. With the return of democrcy, the press intervened once again, in the succession to Sarney, with all the absolutely false reporting on the candidate who represented the popular will, which was Lula at the time. This was repeated in the two elections of Cardoso, but in a more moderate form. It was very notable during his first campaign. In the second, the press behaved itself reasonably well. There were certain references, but nothing really sleazy.

Mas, os dois últimos anos foram inacreditáveis em matéria de criação de fatos sobre nada: foi inacreditável. Para 50 anos de vida política, é uma participação à altura dos partidos políticos e dos militares. Quer dizer, fazem parte da política brasileira os partidos, as Forças Armadas e a imprensa.

The last two years, however, have been incredible with respect to the fabrication of factoids out of thin air. Incredible. For 50 years of Brazil’s political life, the media’s role has been equal to that of the parties and the military. That is, the parties, the armed forces, and the press all play a role in Brazilian politics.

Destes episódios que o senhor listou qual o senhor acha que é o mais emblemático ?

Which of those episodes do you find most emblematic?

Eu acho que dois episódios. Primeiro, a tentativa de impedir a posse de Juscelino Kubitschek. Por quê? Porque Juscelino não era intérprete ou representante de uma classe ascendente. Ele pertencia à elite política. Era um homem do PSD – Partido Social Democrata. Juscelino era um modernizador. Portanto, a tentativa de impedir a sua posse mostra o radicalismo e a intolerância das classes conservadoras brasileiras. Quer dizer, naquele momento, não aceitava nem mesmo um dos seus membros, porque era um modernizador. Este episódio é bem emblemático. Não houve nada de dramático, de trágico ou suicídio, mas é um exemplo de até onde pode chegar a intolerância do conservadorismo brasileiro. É impressionante. Esse foi pra mim um episódio que define muito bem até onde o conservadorismo é capaz de violar os escrúpulos democráticos.

I think of two. First, the attempt to prevent Kubitschek from taking office. Why? Because Kubitschek was not an expression or representative of an ascendant class. He was a member of the political elite, a man of the Social Democrats. He was a modernizer, for which reason the attempt to prevent him from taking power laid bare the radicalism and intolerance of Brazilian conservatism. That is, they could not accept even one of their own, because he was a modernizer. That episode is quite telling. Nothing dramatic about it, nothing tragic, no suicide, but it shows you how far the intolerance of Brazilian conservatism goes. It is astonishing. ….

E o segundo ?

And the other?

É agora com Lula, porque a posse de Lula realmente revela uma nova etapa histórica no país. E revela o quanto o conservadorismo se dispõe a comprometer o futuro do país, pelo fato de o governo estar sendo exercido pelo intérprete de uma nova composição social. Isto é, há um grupo parlamentar e há grupos privados – e neles se inclui a imprensa – dificultando a implementação de políticas que são reconhecidamente benéficas ao país, porque estão sendo formuladas e implementadas por um governo intérprete das classes populares. Isso é impressionante. Quer dizer, no fundo, aquilo que os conservadores dizem que as forças populares – segundo eles, para a esquerda, quanto pior melhor –, na prática, quem pratica o quanto pior melhor são os conservadores.

Lula, because Lula’s election really represents a new phase in our history. And it reveals how deeply the forces of conservatism are committed to undermining Brazil’s future, just because power is being exercised by the expression of a new social composition. That is, there are lawmakers and private groups — among them, the press — who are sabotaging the implementation of policies that are of recognized benefit to the nation, just because they are being formulated and implemented by a government representing the popular classes. It’s astonishing. …

It is weird.

I mean, even I consider myself moderately conservative in some respects, because back in gringoland, there are things that need conserving. Like, oh, say, the Bill of freaking Rights. Government regulation often is efficient and wasteful. Robert Nozick has a valid point to make here and there. Yada yada yada.

What they folks seem to be trying to conserve, on the other hand, is some kind of grotesque Gnostic-slavocratic feudalism. Which tends to make for kind of a mismatch in the meaning of the term “conservatism” between here and there.

I don’t think we are in Kansas anymore, Toto.

Por que, na opinião do senhor, a mídia se considera inatacável, indestrutível ?

Why, in your view, does the media think it is untouchable, indestructible?

Ela se considera indestrutível porque ela tem razões para isso. Ou seja, uma das instituições que até agora vem resistindo à democratização, à republicanização do país é a imprensa. Um país moderno e democrático é um país em que não existe instituição ou pessoa com privilégio de direitos, pessoa que não seja submetida à lei. Na medida em que a democracia se implanta nos países, se reduz o número de instituições e grupos sociais que não se submete à lei. Todo mundo fica, de fato, igual diante da lei. Isso vem acontecendo gradativamente, vagarosamente, mas inapelavelmente no Brasil. Na realidade, nós temos até que as Forças Armadas hoje, no Brasil, estão mais democraticamente enquadradas, mais juridicamente contidas do que a imprensa. Hoje, é muito mais difícil para um representante das Forças Armadas violar impunemente as leis do que a imprensa.

They consider themselves untouchable because they have good reason to believe they are. That is, one of the institutions that has most resisted the republican democratic transition has been the press. A modern, democratic country is one in which no person or institution has privileged rights. There is no one who is not subject to the law. To the degree that democracy takes root, the number of persons and institutions not subject to the law is reduced. Everyone is equal before the law, in fact as well as in theory. This is happening slowly, gradually, but inexorably in Brazil. In truth, even the armed forces are more democratically framed these days in Brazil, more responsive to their constitutional context, than the press is. These days, it is much more difficult for a member of the armed forces to violate the laws with impunity than it is for the news media to do so.

The guy’s books. He has really been churning them lately, apparently.
Including three I have not read yet. One-click! Oh, wait, that’s right: Submarino is not exactly Amazon. Then again, it does have same-day motoboy delivery!

  1. Governabilidade e Democracia Natural (FGV editora, 2007)
  2. O Paradoxo de Rousseau (Editora Rocco, 2007)
  3. Horizonte do Desejo (Editora FGV, 2006)
  4. O Ex-Leviatã Brasileiro (editora Civilização Brasileira, 2006) [read it]
  5. O Cálculo do Conflito (UFMG, 2003) [almost done]

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