“The Ecce Veja Way With the News: How Fiction Came to Replace Journalism”

Click to zoom. The Grupo Abril’s Veja magazine covers the iPhone, January 2007: “It’s like magic!” Photocredit: Fotoagência NMM(-TV)SNB(B)CNN(P)BS-Tabajara. That is to say, I snapped it at the local padaria myself. When the iPhone launched, “it’s like magic” seemed to be something of an official marketing slogan. Steve Jobs could be heard referring to it as “this magic device” over and over and over again. I guess great minds think alike. Nota bene: Time magazine devoted an unprecedented amount of editorial space to the product launch as well.

Advertorial: an advertisement that resembles a newspaper editorial or a television program but promotes a single advertiser’s product, service, or point of view.

The following week, the reporter got new material from his sources. He started writing up an article. A week later, in the edition of March 17, 1999, that article did not appear. However, for the first time, Opportunity — which had been denounced in the previous edition — paid for two pages of advertising in the magazine.

O método Veja de jornalismo: Como a ficção acabou substituindo o jornalismo. “The Veja way of journalism: how fiction came to replace journalism” at the Brazilian newsweekly with the largest circulation of any magazine in the gigante pela própria natureza.

Luis Nassif continues his series of case studies of the magazine’s (absence of) standards and (mal)practices.

A degradação jornalística da revista Veja foi fruto de dois fenômenos simultâneos que sacudiram a mídia nos últimos anos: a mistura da cozinha com a copa (redação e comercial) e o afastamento dos princípios jornalísticos básicos.

The journalistic degradation of Veja magazine was the fruit of two simultaneous developments that have shaken the media up in recent years: mixing [“the grain and the grape”] (mixing editorial with the business side) and a retreat from basic journalistic principles.

‘Mixing the kitchen with the cup.”

I will have to confer with my in-house Brazilian proverb specialist (Mrs. NMM) about that one. Similar to ones about “alhos e bugalhos” and “eating a cat and thinking it’s rabbit.”

Let’s just cheat on the translation and agree that what Nassif is basically talking about is “advertorial.”

Brazilian publications are lousy with it, as the fine ombudsman of the Folha de S. Paulo tirelessly points out.

This translation is draft-quality, as always. You get what you pay for. And I am merely translating at this point. I will try to come along and amateur fact-check behind Mr. Nassif when I get a chance.

Having read this far — and having read the magazine in question on my own, often with my jaw dropped down into my lap (what in God’s name is wrong with these people?) — my belief tends to be firmly in Nassif, however.

Vamos analisar um processo de cada vez.

Let us examine each of these processes in turn.

A copa e a cozinha

The rise of advertorialism

Os grupos de mídia sempre tiveram interesses paralelos em jogo. Para não contaminar as redações, se procurava tratar em âmbito das cúpulas das empresas. Sempre havia maneiras “técnicas” de vetar determinadas matérias que não interessavam, assim como conferir tratamento jornalístico a matérias de interesse da casa.

Media groups have always had parallel interests in play. In order not to contaminate their newsrooms, they tried to manage these business interests from the business-side executive suite. There was always some “technical” way of vetoing articles that did not serve their interests, or shining a journalistic spotlight on stories that did serve them.

Para administrar esse território delicado, as boas redações jamais prescindiram de comandantes fortes e competentes. São os avalistas do jornalismo perante a empresa e da empresa perante a redação. Não vão contra a lógica comercial, mas são os radares, aqueles que informam até onde se pode avançar no noticiário sem comprometer a credibilidade da publicação.

To navigate this treacherous terrain, good newsrooms have always needed strong, competent editorial management. They serve as the guarantors of journalism against the business side and of the business side against the newsrrom. They do not contradict the logic of the business, but they are sensitive radars who warn of how far once can go with the news without undermining the credibility of the publication.

Após a crise cambial de janeiro de 1999, o quadro começou a mudar. Apertos financeiros levaram gradativamente muitas publicações a abrirem mão de cuidados básicos, não só permitindo a promiscuidade entre a copa e a cozinha (redação e comercial), mas também manobras de mercado. Quanto às manobras de mercado, deixo apenas registrado, porque não será tema dessa série.

After the monetary crisis of January 1999, this scenario began to change. Financial straits gradually led many publications to let some basic precautions go, not only permitting a promiscuous relationship between editorial and the business side but also manipulation of the market. As to these market manipulations, I will merely mention it in passing: It will not a subject of this series.

No início de 1999, um episódio marcaria os novos tempos de Veja. Em 10 de março de 1999, em pleno escândalo das “fitas do BNDES”, a revista recebeu material demonstrando que a Previ tinha assinado acordo com o banco Opportunity, de Daniel Dantas, mesmo tendo sido desaprovado por sua diretoria. A matéria foi feita pelo repórter Felipe Patury (clique aqui).

An episode from early 1999 would mark the beginning of a new era at Veja. On March 10, 1999, during the scandal of the “BNDES tapes,” the magazine received material showing that the PREVI pension fund had signed a deal with Daniel Dantas’ Banco Opportunity even though its board of directors had rejected the deal. The article was written by reporter Felipe Patary.

“No início de fevereiro, um diretor do fundo, Arlindo de Oliveira, mandou uma carta ao presidente da Previ. São três páginas, e o tom é de indignação, expresso em frases que se encerram com três pontos de exclamação. Na carta, o diretor relata que a diretoria da Previ, reunida em julho do ano passado, decidiu que não faria parceria com o Opportunity no leilão das teles tendo de pagar ao banco 7 milhões de reais por ano de “taxa de administração”. A diretoria achou o valor descabido e decidiu só fazer o negócio se não tivesse de pagar a taxa. O estranho é que essa decisão foi ignorada. A Previ associou-se ao Opportunity na compra de três teles (Tele Centro Sul, Telemig Celular e Tele Norte Celular) e comprometeu-se a arcar com os 7 milhões de reais por ano, apesar da decisão contrária da diretoria”.

“At the beginning of February, a director of the fund, de Oliveira, sent a letter to the fund’s president. It is a three-page letter with an indignant tone, full of sentences ending in triple exclamation points [!!!], [the Veja reporter wrote.] In it, de Oliveira says that the PREVI board, meeting in July of the previous year, had decided not to partner with Opportunity in the telecom auction if it had to pay the bank R$7 million a year in “management fees.” The board thought this sum exorbitant and decided they would only do the deal if they did not have to pay the fee. The odd thing is that the decision was ignored. PREVI teamed up with Opportunity to buy three telecoms (Tele Centro Sul, Telemig Celular, and Tele Norte Celular) and committed itself to paying R$7 million a year, despite the board decision to the contrary.”

Segundo a matéria, a Previ também havia entrado – sem autorização da diretoria – na operação de compra da Telemar que – na época – pensava-se que sairia para o Opportunity.

According to this article, [Nassif continues,] PREVI had also entered — also without board authorization — into a transaction to buy Telemar, which at the time, it was thought, would go to Opportunity.

Na semana seguinte, o repórter conseguiu mais material das suas fontes. Chegou a preparar a matéria. Uma semana depois, na edição de 17 de março de 1999, a matéria não saiu publicada. Mas, pela primeira vez, o banco Opportunity – denunciado na edição anterior – bancou duas páginas de publicidade na revista.

The following week, the reporter got new material from his sources. He started writing up an article. A week later, in the edition of March 17, 1999, that article did not appear. However, for the first time, Opportunity — which had been denounced in the previous edition — paid for two pages of advertising in the magazine.

Não batia. O Opportunity não é banco de varejo, não atua sequer no middle market, não havia lembrança de publicidade dele nem mesmo em revistas especializadas – como a Exame.

It made so sense. Opportunity was not some consumer bank. It did not even operate in the middle market. No one could remember ever seeing an ad of theirs in any of the speciality [business] magazines, like Exame [Editora Abril.]

No dia 31 de março de 1999, mais duas páginas de publicidade do Opportunity.

On March 31, 1999, two more Opportunity ad pages [in Veja.]

Esse mesmo procedimento – em mão inversa – seria empregado nas duas edições em que Diogo Mainardi me atacou, em defesa de Daniel Dantas. Só que, nesses casos, a fatura foi mais alta: 6 páginas de publicidade da Telemig Celular e Amazônia Celular em cada edição, 12 ao todo. Também não se justificava tamanho investimento publicitário por parte de empresas que tinham atuação regional.

This same procedure — this time in reverse — would be used in the two editions of Veja in which Diogo Mainardi attacked me in defense of Daniel Dantas. In the later cases, however, the price was much higher: 6 pages of advertising for Telemig Celular and Amazônia Celular in each edition, 12 in all. Once again, such an extensive investment in [national] advertising could not be justified by companies with a regional scope.

Really: What the hell am I going to do with an Amazonian cell phone on the Rua Augusta? It’s like having a cell phone account in Alaska when you live in Brooklyn.

Qualquer manual de administração ensina que, quando a empresa passa a fugir do comportamento ético nas suas ações externas, acaba contaminando toda a estrutura.

Any decent manual on business management will tell you that when a company departs from ethics in its external activities, these departures wind up contaminating the entire structure of the company.

Aparentemente, ocorreu um liberou geral na revista. É o que explica as atitudes de Eurípedes com Eduardo Fischer ou as de Mário Sabino manipulando listas de livros mais vendidos para incluir o seu. E o lobby escancarado da revista em favor de Daniel Dantas, especialmente através das colunas de Diogo Mainardi.

Apparently the magazine declared open season. This explains Alcântara’s relations with Eduardo Fischer and Sabino’s manipulation of the best-seller lists to make sure his own book was included. And the magazine’s barefaced lobbying on behalf of Dantas, especially in Mainardi’s columns.

Com escorregões cada vez mais freqüentes, tornou-se difícil – mesmo para os leitores mais atilados – identificar o que eram falhas editoriais, interesse da Abril ou interesse dos diretores da revista.

With such lapses becoming more and more frequent, it became hard — even for attentive readers — to tell the difference between editorial failures, Abril’s business interests, and the personal interests of editorial management.

Havia um fator a mais a estimular a falta de controle: a desobediência ampla aos princípios jornalísticos básicos. E aí se encontra um farto material sobre o mais completo compêndio de anti-jornalismo que a história moderna da mídia brasileira registrou: o estilo Veja de jornalismo.

And there was another factor stimulating this lack of control: The [frank and far-reaching disrespect for] the basic principles of journalism. It is here that we find ample material for the most complete compendium of antijournalism in the modern history of the Brazilian news media: The Veja way of journalism.

Desde os anos 80, cada vez mais Veja se especializaria em “construir” matérias que assumiam vida quase independente dos fatos que deveriam respaldá-las. Definia-se previamente como “seria” a matéria. Cabia aos repórteres apenas buscar declarações que ajudassem a colocar aquele monte de suposições em pé.

Since the 1980s, Veja had increasingly specialized in “constructing” articles that acquired a life of their own, independent of the facts on which they ought to have been based. How the story “ought to be” was defined in advance. The reporter’s job was merely to go out and get quotes that would help prop up this heap of prior speculation.

Essa preparação prévia da reportagem ocorre toda segunda-feira nas reuniões de editores. É chamada de “pensata”.

This prior planning of reporting takes place every Monday at the editors’ meeting and is known as the “brainstorming” session.

O que era um estilo criticável, com o tempo acabou tornando-se uma compulsão, como se a revista não mais precisasse dos fatos para compor suas reportagens. Ela se tornou uma ficção ampla, algo que é de conhecimento geral dos jornalistas brasileiros.

But what was once a style subject to criticism developed over time into a compulsion, as though the magazine no longer needed facts in order to produce its reporting. It became complete fiction, as every Brazilian journalist knows full well.

Ainda nos anos 80, o caso mais célebre foi o do “boimate” – criação de Eurípedes Alcântara, já mencionado em outro capítulo.

In the 1980s, for example, you have the famous case of the [“cowmato”] — credit Alcântara — mentioned in an earlier chapter.

A prominent popuar science magazine runs an [Abril] Fool’s story about a mad genetic engineer (named McDonalds) who crosses a cow with a tomato to save a step in the hamburger sandwich assembly process.

Veja picked it up as though it were true, Nassif reports. Ecce Veja.

Mas, à medida que se entrava na era Tales Alvarenga- Eurípedes- Sabino, final dos anos 90 em diante, esse estilo ficcional passou a arrostar os limites da verossimilhança.

But as the Alvarenga-Alcântara-Sabino era arrived, from the late 1990s on, this penchant for fictionalizing starting bumping up against the limits of verisimilitude.

O primeiro filtro sobre uma matéria é avaliar se os fatos relatados são verossímeis. Se passar nesse teste básico, é que se irá conferir se, mesmo sendo verossímeis, também são verdadeiros.

The first filter a news article passes through is to evaluate whether the information related is plausible. If it passes this first test, the next thing is to check whether this plausible information is, in fact, true.

Com o tempo, tornaram-se cada vez mais freqüentes as matérias absurdas, sem nexo, sem conhecimento básico sobre economia, finanças, valores, relações de causalidade. Sobre jornalismo, enfim.

Over time, it became more and more frequent to see articles that were absurd, incoherent, lacking in basic knowledge of economics, finance, values, causal relationships. Lacking a basic knowledge of journalism, in other words.

O modelo Veja de reportagem

The standard Veja article

Antes de análises de caso, vamos a uma pequena explicação sobre como é esse modelo Veja de reportagem.

Before we move on to case studies, let’s go to a quick explication of the standard Veja article.

1. Levantam-se alguns dados verdadeiros, mas irrelevantes ou que nada tenham a ver com o contexto da denúncia, mas que passem a sensação de que o jornalista acompanhou em detalhes o episódio narrado.

1. Some true, but irrelevant, facts are acquired, or facts having nothing to do with the context of the charges made, but which convey the sense that the journalist has followed the episode in question in some detail.

Classic case: The Veja cover on the Sen. Calheiros sex scandal, which tried to connect the case with a federal police operation targeting lobbyists for a specific public-works contractor alleged to have bribed or provided favors to politicians in exchange for a pro quo. The charges made against the “sex Senator,” which no one was able to make stick, had absolutely nothing to do with that specific case except for a certain vague thematic resonance.

2. Depois juntam-se os pontos, cria-se um roteiro de filme, muitas vezes totalmente inverossímil, mas calçado nos fatos supostamente verdadeiros.

2. Next, the talking points are assembled, a film script is created, oftentimes a completely implausible one, but based on supposedly true facts.

3. Para “esquentar” a matéria ou se inventam frases que não foram pronunciadas ou se tiram frases do contexto ou se confere tratamento de escândalo a fatos banais. Tudo temperado por forte dose de adjetivação.

3. To “heat up” the article, they either invent quotes that no one ever actually said, or they quote out of context, or they treat banal facts as scandalous. Seasoned with a strong dose of colorful adjectives.

O caso “boimate” é clássico. Depois de cair no conto de 1o de abril da New Scientist – sobre um cruzamento de boi com tomate que resultou em uma carne com molho -, envia-se um repórter para obter uma frase de efeito de um cientista da USP.

The “cowmato” case is a classic. After reading the [Abril Fool’s] story in the New Scientist about the crossing of a cow with a tomato, resulting in [pre-ketchuped hamburger], a reporter was dispatched to get a quote on the subject from a USP scientist.

O repórter perguntou o que o cientista achava. A resposta foi que era impossível tal experimento. O repórter tinha que voltar com a frase que se encaixasse na matéria, então insistiu: “E se fosse possível!”. O cientista, ironizando: “Seria a maior revolução da história da genética”.

The reporter asked the scientist what he thought. The reply was that such an experiment was impossible. The reporter had to come back with a quote that fit the pretext of the article, so he inisted: “And what if it were possible?” The scientist, joking, said, “It would be a major revolution in genetic science.”

A matéria saiu com a frase do infeliz dizendo que era a maior revolução da história da genética.

The article came out quoting the poor man as saying that the cowmato was a major revolution in genetic science.

Dentre todos os repórteres, no entanto, nenhum se esmerou mais na arte ficcional do que Policarpo Júnior, recentemente promovido a Diretor da Sucursal de Brasília. Assim como Lauro Jardim e Mainardi cultivam os lobistas cariocas, Policarpo é um freqüentador habitual do submundo de Brasília, convivendo com arapongas, policiais e lobistas em geral.

Of all Veja’s reporters, howevr, none is so adept at the art of fiction than Policarpo Júnior, recently promoted to Brasília bureau chief. Much as Jardim and Mainardi cultivated the Rio lobbying corps, Policarpo is an habitué of the Brasília lobbying underworld, hanging around with spies, cops and lobbyists in general.

Vamos a alguns exemplos pré-governo Lula para entender, na prática, em que consiste esse estilo Veja, a partir de algumas obras de Policarpo.

Let’s look at a few examples, pre-Lula, in order to understand in practical terms what this Veja style consists of, based on the works of Policarpo.

O caso Chico Lopes

The Chico Lopes case

Em janeiro de 1999, quando houve o estouro no câmbio, seguiu-se uma catarse geral na mídia, uma busca de escândalos a qualquer preço. Foram publicados absurdos memoráveis que acabaram se perdendo no tempo – como o de que Fernando Henrique Cardoso se valia do seu Ministro-Chefe da Casa Civil Clóvis Carvalho para informar os banqueiros sobre as mudanças cambiais.

In January 1999, when the currency crisis broke out, there was a general catharsis in the media, a search for scandals at any price. Memorably absurd articles were published that wound up getting lost in the mists of time, such as the report that President Cardoso had used his [chief of staff] to tip bankers to the coming change in monetary policy.

O escândalo refluiu, cada publicação tratou de esquecer as ficções que plantou e a vida prosseguiu.

The scandal finally ebbed, each publication tried to forget the fictions they had run, and life went on.

Na época, Veja publicou uma capa acusando Chico Lopes de ter beneficiado os bancos Marka e FonteCindam com informações privilegiadas. Chegou a afirmar que quatro bancos pagavam US$ 500 mil mensais para ele (clique aqui).

At the time, Veja published a cover story accusing Chico Lopes of having favored the Marka and FonteCindam banks with insider information. It claimed that four banks paid him a total of US$500,000 apiece.

I just finished reading the Autobiography of Malcom X-style memoir of the owner of Marka. Fascinating stuff. The man has extradition proceedings pending in Monaco at the moment.

A matéria não respondia à questão central: se os dois bancos recebiam informações privilegiadas de Chico Lopes, se Chico assumiu a presidência do Banco Central com a missão precípua de mudar a política cambial porque, raios!, apenas eles quebraram na mudança? Na época, a explicação de Veja já era absurda. Assoberbado com os problemas da mudança cambial, Chico tinha se esquecido de avisar seus clientes (que lhe pagavam US$ 500 mil mensais apenas para ter aquela informação).

The article did not answer the central question: If the banks actually received inside information from Lopes, and if Chico took over the central bank with a mandate to alter monetary policy, then why the hell did they all go broke when the change come?

That seems like a fair question to me.

At the time, Veja‘s explanation was an absurd one. Mired in the problems of monetary policy, Chico simply forgot to advise his clients (who supposedly paid him half a million bucks a month for the information.)

O mistério persistiu até o dia 23 de maio de 2001 quando saiu a capa da Veja “A História Secreta de um Golpe Bilionário” um clássico à altura do “boimate”, de Eurípedes Alcântara (clique aqui).

The mystery persisted until May 23, 2001, when Veja ran a cover story headlined “The Secret History of a Billion-Dollar Scam,” another classic along the lines of the “cowmato” from Eurípides Alcântara.

A abertura nada ficava a dever a um conto de Agatha Christie.

An Agatha Christie yarn has nothing on the article lead paragraph.

O momento mais dramático do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso ocorreu no dia 13 de janeiro de 1999.(…) O que ninguém sabia é que, desde aquele dia, um grupo reduzidíssimo de altos membros do governo passou a guardar um segredo de Estado, daqueles que só se revelam vinte anos depois da morte de um presidente. Após quatro meses de investigação e 22 entrevistas com catorze personagens envolvidos, VEJA desvendou peças essenciais para o esclarecimento do mistério, que resultou na inesperada, e até hoje inexplicada, demissão do presidente do Banco Central apenas duas semanas depois da desvalorização.

[Veja writes]: The most dramatic moment of the Cardoso administration came on January 13, 2000 … What no one knew then was that, from that on, a tiny circle of high-ranking government officials would guard a secret of State of the kind that is only to be revealed upon the death of the President. After four months of investigations and 22 interviews with 14 persons, VEJA has laid bare the essential clues needed to solve the mystery, which resulted in the unexpected, and until now unexplained, dismissal of the president of the Central Bank just two weeks after the devaluation [of the Brazilian real.]

A demissão de Lopes tinha sido mais que explicada: os erros na condução da mudança da política cambial.

The reason for firing Lopes had been amply explained, and then some: His errors in implementing the change in monetary police[, Nassif comments.]

O então presidente do Banco Central, o economista Francisco Lopes, vendia informações privilegiadas sobre juros e câmbio – e uma parte de sua remuneração saía da conta número 000 018, agência 021, do Bank of New York. A conta pertencia a uma empresa do Banco Pactual, a Pactual Overseas Bank and Trust Limited, com sede no paraíso fiscal das Bahamas. Chico Lopes, como é conhecido, repassava as informações para dois parceiros, que se encarregavam de levá-las aos clientes do esquema. Os contatos entre os três eram feitos por meio de aparelhos celulares. A Polícia Federal suspeita que os números sejam os seguintes: 021-99162833, 021-99835650 e 021-99955055

[VEJA again:] The central bank president at the time, economist Francisco Lopes, was selling privileged information on interest rates and foreign exchange rates — and part of his payment for doing so came out Account No. 000 018 at Branch No. 21 of the Bank of New York. The account belonged to a subsidiary of the Banco Pactual called Pactual Overseas Bank and Trust Ltd., headquartered in the fiscal paradise of the Bahamas. Chico Lopes, as is well known, passed the information to two accomplices, who passed it on to the clients of the scheme. The contacts among the three were made using cellular phones. The Federal Police suspect the numbers of those phones were as follows: 021-99162833, 021-99835650 and 021-99955055.

Salvatore Alberto Cacciola, então dono do banco Marka, do Rio de Janeiro, descobriu todo o esquema por meio de um grampo telefônico ilegal e também passou a ter as mesmas informações privilegiadas. As fitas, que registram as conversas grampeadas, estão guardadas num cofre no Brasil – e há cópias depositadas num banco no exterior. Cacciola chegou a custear viagens a Brasília para que seu contato obtivesse, pessoalmente, as informações de Chico Lopes. Numa delas, seu contato voou do Rio a Brasília num jatinho da Líder Táxi Aéreo (o aluguel do jato saiu por 10 500 reais) e hospedou-se no hotel Saint Paul (a conta: 222,83 reais). Quebrado com a mudança cambial, que seu informante não conseguiu avisar-lhe a tempo, Cacciola desembarcou em Brasília no dia seguinte, 14 de janeiro de 1999, com o que chamou de “uma bazuca”. Ela estava carregada de chantagem: ou o BC lhe ajudava ou denunciaria ao país a existência do esquema. O BC ajudou. Vendeu dólar abaixo da cotação e, no fim, Cacciola levou o equivalente a 1 bilhão de reais.

[More Veja, in the “Agatha Christie” stye:]

Era um furo fantástico! Em vez de pagar US$ 500 mil mensais, Cacciola descobrira o modo mais barato de obter informações privilegiadas: grampeando celulares.

[Nassif comments:] It was a fabulous scoop! Rather than paying US$500,000 a month, Cacciola had discovered a cheaper way to get privileged information: bugging cell phones.

Na mesma abertura se dizia que ele se informava através de um “grampo” e que tinha um informante.

In the same lead-in, it is stated that he received the information through a bug and had an informant.

Nem se fale do contra-senso de alguém experiente em mercado jogar todo seu futuro no resultado de um “grampo”. Qualquer decisão de mudança de política cambial seria imprevista, da noite para o dia. Como confiar toda sua vida financeira a um mero “grampo”?

[It goes without saying] that it is highly unlikely that an experienced market operator would gamble his entire future on the results of his “bug.” Any decision on changing monetary policy would be unforeseeable from one day to the next. How could you gamble your financial standing on a mere “bug”?

Segundo a matéria, no dia aziago o grampo falhou e Cacciola quebrou. Indignado, foi tirar satisfações com Chico Lopes, que cedeu à chantagem.

According to the Veja article, on D-day, the bug failed and Cacciola went broke. Indignant, he demanded satisfaction of Chico Lopes, who caved in to the blackmail.

In his book, Cacciola tells a different story, of course. He merely asked for a bail-out so he could pay off his investors and zero out the bank’s debt. The bank later went out of business. He claims that business rival coopted Veja into ratfinking him in order to obscure that business rival’s own culpability in the matter.

Como foi montado esse nonsense?

How was this nonsense constructed?

Depois de “22 entrevistas com 14 personagens” envolvidos, Policarpo havia conseguido – de fato – as seguintes informações:

“After 22 interviews with 14 persons” involved in the case, Policarpo had gathered the following (genuine) information:

1. Com Luiz Cezar Fernandes, ex-controlador do Pactual, em briga com seus ex-sócios, o número da suposta conta-corrente do Pactual em Nova York de onde sairiam os supostos pagamentos para Chico Lopes. Na verdade o número apresentado era o de registro do banco na praça de Nova York, feito junto ao Banco de Nova York – equivale aquele 001 que você confere nos cheques do Banco do Brasil.

1. From Luiz Cezar Fernandes, former controlling shareholder of Banco Pactual, involved in a dispute with his former partners, he got the number of the supposed Pactual checking account in New York from which the supposed payoffs to Lopes allegedly came. In fact, the number he presented was merely the bank’s [registration number] with the Bank of New York — equivalent to that 001 that you see on Banco do Brasil checks.

I think they call that the “routing number,” right? It merely identifies the bank to which the account number refers, not the account itself.

2. Na declaração de renda de Luiz Bragança (o suposto intermediário de Chico Lopes no vazamento das informações) algum araponga brasiliense levantou os números dos três celulares. Ou seja, o sujeito montava um esquema super-secreto para transmitir informações, que supostamente renderia US$ 500 mil mensais, valendo-se de telefones celulares – e colocava o numero dos aparelhos na sua declaração de renda.

2. On the income tax statement of Luiz Bragança (Lopes’ supposed go-between in the scheme to leak privileged information) some Brazilian spy came up with the numbers of three cell phones. That is to say, the guy set up a top-secret scheme to leak inside information, one that supposed brought in a half million [gringobucks] a month, using cell phones — and declared the numbers of those phones on his income tax.

Como tempero final, um apanhado de fatos e dos boatos mais inverossímeis que circularam por ocasião da mudança cambial.

As a finishing touch, an assortment of factoids and wild rumors that were circulating about the change in monetary policy.

Bastava isso para se para se ter um enredo que provocou gargalhadas em todos os jornalistas que cobriam a área financeira.

That was all that was needed to produce a screenplay that made journalists who cover the financial world [laugh their asses off.]

Na época apontei a maluquice; minha colega Mirian Leitão também. E menciono a Mirian por que, anos depois, essa crítica estimularia uma revanche de Veja: ataques continuados contra seu filho Matheus Leitão, repórter da revista Época. Essa história será contada em outro capítulo.

I pointed out the insanity of this story at the time, as did my colleague Miriam Leitão. I mention Miriam because years later, her critique of the story led to an act of vengeance on Veja’s part: Continuous attacks on her son Matheus Leitão, a reporter for Época magazine. That story I will tell in another chapter.

Citado na matéria, o economista Rubens Novaes enviou carta a Veja esclarecendo todos esses pontos. A carta jamais foi publicada. Ele limitou-se a enviar cópias para alguns jornalistas.

Quoted in the story, economist Rubens Novaes sent a letter to Veja clarifying all these points. The letter was never published. Novaes limited himself to sending copies to a few journalists.

Longe de mim afirmar que não houve irregularidade, que Cacciola era inocente, ou mesmo colocar a mão no fogo por Chico Lopes. Na época, mesmo, divulguei indícios fortes de que Cacciola tinha, no mínimo, alguém que lhe passava informações sobre as taxas de juros praticadas pelo Central – e até sugeri a metodologia para identificar essa prática de “insider”.

Far be it from me to say that nothing untoward happened, that Cacciola was innocent, or even to stick my neck out for Chico Lopes. At the time, in fact, I published strong indications that Cacciola had at the very least someone passing him information on interest rates at the central bank — and even suggested a method for identifying this “inside informant.”

Mas era evidente que toda a matéria de Veja era uma ficção ampla.

But it was still obvious that Veja‘s article was compete fiction.

Similar to the case of Sen. Calheiros. If you could fight your way through all the noise, there were legitimate questions about the man’s activities that never got answered.

But Veja‘s accusations against him — based on an anonymous source who turned out to be the Senator’s girlfriend’s palimony lawyer (who later negotiated her nude appearance in Veja’s sister publication, Playboy Brasil) — were absurd.

Anote esse exemplo porque, longe de exceção, refletia um padrão de “jornalismo” presente em todas as coberturas bombásticas da revista.

I note this example because, far from being an exception, it represents the model and the rule of the kind of “journalism” present in all of the magazine’s bombastic coverage.

Na era Eurípedes-Sabino, Policarpo, repórter de escândalos, freqüentador do submundo dos lobbies de Brasília, tornou-se diretor da sucursal da revista. E seria o autor das capas mais rocambolescas da cobertura do “mensalão”.

Under Alcântara and Sabino, Policarpo, a scandal reporter and habitué of the lobbying underworld of Brasília, was promoted to bureau chief, and would author some of the most garish cover stories in the magazine’s coverage of the “big monthly allowance” scandal.

Coube a ele divulgar o vídeo em que o funcionário dos Correios, Mauricio Marinho, aceitou a propina de R$ 3 mil. E que deflagrou a campanha do “mensalão”.

It was Policarpo who published the video in which a postal service employee, Mauricio Marinho, takes a R$3,000 bribe — the video that touched the scandal off.

Mas este é tema para um outro capítulo.

But that is a topic for another chapter.

My comment: Looking forward to reading that.

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